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| Vinhos de culto, alguém os bebe? |
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| Autor: Rui Falcão |
| Data: 05 de Dezembro de 2002 |
| Tema: Opinião |
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| Vinhos de culto, alguém os bebe? |
Com demasiada frequência os vinhos famosos, caros e raros não são bebidos, apenas provados! Mesmo para aqueles poucos privilegiados que possuem uma capacidade financeira quase ilimitada para poderem adquirir vinhos tais como Pingus (Espanha), Le Pin (França), Sreaming Eagle (Estados Unidos e provavelmente o vinho de culto mais famoso e caro com um preço recente em leilão de 3500€ por uma garrafa de 1994!!!) ou Batuta (Portugal), a perspectiva de consumir qualquer destes vinhos à refeição é um projecto deveras dantesco e impraticável. Conhecendo a natureza humana e sabendo que estes vinhos de status (de preços demenciais) funcionam na maioria dos casos como verdadeiros símbolos sociais, a perspectiva de abrir um destes vinhos sem ter convidados para soltar uns oooooooohs e aaaaaaaahs é quase impensável. Afinal quantas pessoas conseguem comprar Screaming Eagle por ano? Cerca de uma centena e meia apenas, cada uma com uma caixa de 3 garrafas... E Batuta, quantos conseguem ter esse privilégio? Na realidade penso muitas vezes se este tipo de vinho foi alguma vez feito para ser bebido ou se é apenas um bem, um "status symbol"? No caso português ainda não chegámos à loucura de preços vigentes noutros países produtores, embora a realidade se apresente mais toldada ao analisarmos o preço face ao padrão de vida dos portugueses... Temo no entanto que no tocante à quantidade já lá estejamos muito perto, sobretudo com exemplos como o Batuta.
Quando este tipo de vinhos é aberto, ou melhor, quando qualquer vinho caro e raro é aberto, transforma-se a ocasião num evento, não num jantar! Normalmente juntam-se várias pessoas bem como vários vinhos famosos, altura em que são servidas porções mínimas a cada convidado e na maior parte dos casos a garrafa nem sequer á aberta na melhor fase do vinho. Este tipo de comportamento é perfeitamente normal e compreensível tanto para o consumidor comum como para o consumidor esclarecido. Afinal, a única forma de os enófilos inveterados poderem provar este tipo de vinhos de uma forma mais ou menos regular é através de um grupo, de forma a conseguir partilhar recursos. A suprema ironia deste procedimento é que a maioria dos vinhos sérios não são vinhos para provar apressadamente, mas sim vinhos para apreciar e meditar longamente ao longo de um tempo dilatado. Os vinhos vão mudando no copo, vão evoluindo e geralmente só revelam os seus segredos íntimos com arejamento e sobretudo com o tempo.
E afinal, os vinhos de culto valem o seu preço? Na maioria dos casos a resposta é simples e taxativa, não! Oferecem muito pouca qualidade para o preço a que são comercializados, não são únicos nem inimitáveis. Não proporcionam um nível qualitativo arrasador que nenhum outro vinho consiga superar. Não são propriamente a melhor coisa do mundo desde que se inventou a roda. Não ficamos sem palavras ao bebe-los. É certamente fácil pensar em centenas de outros vinhos que podem proporcionar experiências idênticas ou mesmo melhores por menos euros. Os vinhos de culto geralmente são apenas bens raros e coleccionáveis. São realmente vinhos ou meros trofeus de prateleira?
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