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Ensaio de Calibração
 
Autor: Tiago Teles
Data: 8 de Maio de 2003
Tema: Técnico/Ensaio
 
Ensaio de Calibração
A ideia de efectuar um ensaio de calibração surgiu após uma visita ao site http://www.wine-pages.com/forum/pce.htm. A apresentação de um estudo curioso realizado com base em 36 notas de prova sobre um determinado vinho , desafiou a minha percepção sobre as condicionantes de prova, o que por sua vez, originou o ensaio de calibração proposto no fórum Os5às8.

Os participantes do fórum foram desafiados a avaliar um determinado vinho, respondendo, de igual forma, a perguntas específicas sobre as suas qualidades e valores. O objectivo deste ensaio pretendia avaliar, até que ponto, a nossa sensibilidade e critérios de prova diferem, ou não, da avaliação feita por outros provadores. Pretendia também ser didáctico e enriquecedor, permitindo, a cada provador, conhecer melhor os seus limites imaginários de referência, normalmente utilizados na classificação de um vinho.

O processo de definição do vinho para prova não foi fácil, tendo recaído a escolha no tinto Quinta das Caldas 2001. A sua selecção assentou nos seguintes critérios:
  • O tinto tem maior aceitação junto dos consumidores.
  • A colheita de 2001 é recente, evitando desvios causados por diferentes condições de guarda.
  • O seu preço, entre 4 e 6 euros, é competitivo.
  • O vinho estar disponível nos grandes Supermercados (Continente, Jumbo, Pingo Doce).
  • É um produto de exportação, estando presente em diversos mercados.
  • O vinho tem uma complexidade média.
A classificação parcial para cada elemento foi a utilizada no site Os5às8: http://www.os5as8.com/provados.htm. Foi também pedido aos participantes que respondessem a um conjunto de perguntas sobre as qualidades e valores do vinho, que serão descritas juntamente com a apresentação dos resultados. No total, participaram 23 pessoas no ensaio de calibração. Os resultados são apresentados nas tabelas seguintes. O número de amostras recolhidas não permite um tratamento estatístico aprofundado tendo, por isso, sido feita uma simples análise dos dados.


Figura 1 - NARIZ, média=13,96



Figura 2 - BOCA Estrutura, média=13,91



Figura 3 - BOCA Comprimento, média=13,85




  Sim  Não  Talvez 
O engarrafamento transparece boa qualidade?61%17%22%
Tem qualidade para ser exportado?35%43%22%
Tem boa relação preço qualidade?78%9%13%
Voltaria a comprar o vinho?22%30%48%

Tabela 1 - Qualidades e Valores



 Idade  Amostras  Nariz  Boca E.  Boca C. 
< 20111%11%11%
20 e 25313,3%13%13,3%
25 e 30513,7%13,7%13,2%
30 e 35613,8%13,8%14,8%
35 e 40314,3%14,8%13,3%
40 e 45314,7%15,6%15,3%
50 e 55215,7%13,2%13,2%

Tabela 2 - Médias por segmento de idade



Comentários

Tentarei ser breve nos comentários aos resultados, por pensar que cabe a cada leitor fazer a sua própria avaliação, retirando daí as devidas ilações. Ressalva, também, para a necessidade de encarar esta informação como indicativa do nível médio de consumidores, e nunca como uma referência absoluta. A razão é simples: não somos 23 provadores brilhantes e competentes, mas sim, 23 consumidores. Por outro lado, há quem considere o vinho no limiar do aceitável (10) e quem o considere um grande vinho (17,5). Estes valores, que se afastam muito da média, revelam mais sobre o provador do que sobre o vinho em si.

É interessante verificar que a média global dos três elementos em análise anda muito próxima do 14 (N=13,96; BE=13,91; BC=13,85 - vinho equilibrado?).

O Nariz é, com naturalidade, o elemento mais concordante. Apesar da disparidade em algumas classificações, os valores médios andam em torno de 14 e 15 valores. Neste item, o gosto pessoal desempenha um peso importante mas, sendo o aroma simples e directo (complexidade reduzida), quase toda a gente é unânime na sua apreciação.

É interessante observar os gráficos da estrutura e do comprimento de boca. Este último é o que apresenta maior desvio nas apreciações. Pessoalmente, considero o comprimento de boca a medida mais difícil de avaliar e dominar num vinho. Por um lado, para a maioria das pessoas não existe um marco objectivo na evolução do vinho na boca que nos diga "terminou" e, por outro é nesta fase que se percepciona o seu equilíbrio estrutural. Além disso, o comprimento de boca não é uma questão de gosto pessoal, requerendo experiência na sua quantificação, experiência essa que está associada directamente à nossa escala de valores imaginária. Por exemplo, o consumidor pode ter bebido um vinho que, na sua escala de valores, tem um final de boca longo mas que, em comparação com outro vinho, por ele não experimentado, poderá ter um final de boca médio/curto.

A maioria dos participantes considerou o vinho como tendo uma boa relação preço/qualidade. Para mim, este factor é mais do que suficiente para justificar a sua exportação, desde que o vinho esteja inserido numa gama vasta de produtos que incluam os topo de gama.