Mais um Ensaio de Calibração, mais um branco, nesta quarta edição desta série de ensaios onde são os clientes finais a dissecar e analisar alguns dos vinhos portugueses. Para este ensaio, o vinho escolhido foi o Soalheiro 2002, um valor seguro e reconhecido nos brancos portugueses. No total participaram 18 cobaias, perdão 18 provadores, que disseram de sua justiça e aos costumes disseram nada! Os resultados são apresentados nas seguintes tabelas.
 Figura 1 - NARIZ, média=16,00
 Figura 2 - BOCA Estrutura, média=15,78
 Figura 3 - BOCA Comprimento, média=16,11
 Figura 4 - Tipificação da Cor
| | Excelente | Muito Boa | Boa | Aceitável | Má |
| Como caracteriza a imagem do rótulo? | - | - | 78% | 11% | 11% |
| Como caracteriza a relação qualidade/preço? | - | 33% | 56% | 11% | - |
Tabela 1 - Imagem de marca
| | Garantidamente | Provavelmente | Talvez | Não |
| Voltaria a comprar o vinho? | 78% | 11% | - | 11% | Tabela 2 - Fidelidade do cliente
| | Sim | Talvez | Não |
| Pensa que o vinho beneficia com a comida? | 78% | 22% | - |
| Tem qualidade para ser exportado? | 89% | 11% | - |
Tabela 3 - Qualidades e Valores
Comentários
Ataquemos então a sempre didáctica análise estatística. Tal como no terceiro ensaio de calibração (igualmente com um vinho branco), há que destacar a fraca dispersão de resultados. As apreciações foram homogéneas, directas e bastante precisas. Segundo facto a destacar, a elevada classificação média deste Soalheiro. O comprimento de boca, faceta mais valorizada pelo painel de provadores, alcançou a espantosa e a todos os tipo surpreendente média de 16,11! Parece-me admirável que em dois ensaios sucessivos com vinhos brancos se tenham pulverizado resultados anteriores de vinhos tintos. Sobretudo em parâmetros normalmente pouco apetecíveis e pouco associados a vinhos brancos como estrutura de boca. Poderemos daqui concluir que afinal os vinhos brancos também nos podem surpreender?
A análise cromática não deu lugar a dúvidas. A maioria dos provadores, dois terços (66%), classificou a cor como amarelo claro, e cerca de um terço (33%) como sendo praticamente branca. Outra coisa não seria de esperar de um vinho jovem, elaborado com as casta Alvarinho, fermentado e estagiado em inox e proveniente da região de Vinhos Verdes.
A imagem de marca do vinho é um dos componentes chaves desta iniciativa. É uma das boas formas de retractar a imagem que o vinho tem junto do consumidor, algo difícil de avaliar. Comecemos pela imagem transmitida pela garrafa e pelo rótulo. Como sabemos esta imagem é fundamental para a compra por impulso, para o destaque de um vinho numa prateleira. Os olhos também ajudam na decisão de compra, e se assim for, este Soalheiro provavelmente será preterido. A imagem estética não é o seu forte. A quase totalidade dos provadores (78%) refugia-se num quase seráfico "bom", não existindo nenhuma referência aos qualificativos "muito bom" ou "excelente". Depois há mesmo quem considere a imagem como pobre, com 11% a considerar a imagem como "aceitável" e outros 11% a considerá-la "má"!
A relação qualidade/preço, acaba por ser uma grata surpresa, pela positiva. Se não vejamos, para um vinho (ainda por cima branco - estamos em Portugal) com um preço de retalho que se aproxima dos 8/9€, é interessante verificar que um terço (33%) dos provadores atribuiu-lhe o rótulo "muito boa"! Um pouco mais de metade (56%) considerou-a "boa" e cerca de 11% considerou-a aceitável. Nada mau, para o vinho mais caro até hoje analisado num ensaio de calibração.
Mas, se o produtor tem mesmo razões para sorrir é na sacrossanta questão - Voltaria a comprar o vinho? É que a quase totalidade (78%) dos membros do painel afirmaram que "garantidamente" voltariam a comprar o vinho! E mais, 11% ainda afirmou que "provavelmente" voltaria a comprar o vinho. Não deixa de ser curioso verificar depois, outros 11%, afirmam que não o voltariam a comprar. Razões de sobra para deixar o produtor contente com os resultados.
Finalmente, aparentemente o Soalheiro liga bem com a mesa e é um bom acompanhante para a nossa gastronomia. Pelo menos é o quem pensam 78% dos membros do painel. E mais uma vez, a maioria (89%) admite que este branco português tem qualidade suficiente para ser exportado.
Mais uma vez foi dada liberdade aos participantes, que assim o entendessem, de acrescentar comentários ao vinho em análise. Eis a transcrição (devidamente identificada) dos comentários que recebemos:
Jorge Saraiva - O vinho apresenta-se com um amarelo claro brilhante. No nariz é complexo, não sendo exuberante, tem aromas florais, algum citrino, algo de fruto tropical e, depois de algum tempo no copo, umas notas de pêssego. Na boca tem um ataque fresco/seco, envolvente com corpo, o álcool e a acidez bem envolvidos, sendo que a acidez ainda se sobrepões um pouco. O fim de boca é persistente, muito persistente. Promete que este vinho, muito acima da média, ainda vai beneficiar com a guarda, ganhando equilíbrio, pelo menos no próximo ano.
Carlos Lopes - Gostei muito e é um vinho para voltar a beber.
Pedro Brandão - "Cor amarela límpida. Aroma delicado, ligeiro limonado, fundo de fruto tropical, notas minerais e de maçã verde. Excelente acidez a dar uma óptima frescura a um conjunto muito equilibrado. Ligeiro corpo a enobrecer o vinho, boca com notas adocicadas de fruto tropical maduro, terminando médio no palato. Excelente Alvarinho, de grande reputação e que não dorme à sombra dela, nesta versão 2002."
Pedro Miguel - Bebo o Soalheiro há vários anos e não perco uma colheita!
Rui Miguel - Este vinho cativou-me particularmente pelo seu nariz. Notas de limão, mineral, boa fruta. Aromas de maçã. Na boca, o sabor alinhou pelos aromas. Senti também algum exotismo, fino e um final médio/longo. Boa estrutura. Fazia um comentário final! O Rótulo merecia mais trabalho.
Luís Paiva - Uma das melhores expressões do "nosso" Alvarinho.
João Paulo - Nariz maravilhoso. O melhor Alvarinho de Portugal.
Pepe - Excelente. Aromas florais e casca de pêssego e fruta tropical. Longo na boca é talvez o melhor branco português.
Pratos sugeridos para acompanhar este vinho foram vários e mais uma vez penso que é curioso e pedagógico sentir as diferentes sensibilidades dos participantes. Segue-se um enumerado das sugestões avançadas, aqui não identificadas. As propostas foram, "Peixes grelhados, marisco cozido", "Filetes de peixe espada; corvina cozida com legumes", "Peixe grelhado (robalo e dourada de mar)", "Filetes de linguado com molho de amêndoa", "arroz de polvo, guarnecido com gambas e filetes de lagosta"!
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