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Botânica e estrebaria
 
Autor: Rui Falcão
Data: 16 de Agosto de 2002
Tema: Opinião
 
Botânica e estrebaria
Recordo a época, infelizmente muito pouco afastada, em que eram louvados os célebres aromas a pimento verde, que massacravam as nossas papilas gustativas com o seu insuportável "verdasco". Como representavam um indicio inequívoco do admirado e venerado Cabernet Sauvignon, aceitava-se a sua presença como sintoma de qualidade do vinho. De aqueles verdores nasceu um dos mal entendidos mais perniciosos da critica enológica portuguesa, felizmente em fase de correcção. Porque as "verduras" que se cozinhavam nas nossas adegas nada tinham a ver com o maltratado varietal bordalês, senão com a extrema juventude das vinhas, com uma proporção foliar mal conduzida e, sobre tudo, com a maturação incorrecta, tão fácil de confundir numa casta que pode alcançar grau e acidez adequados sem que a uva tenha adquirido adequadamente a sua característica frutada. Felizmente o papel do enólogo na vinha foi proclamado como fundamental e hoje o consumidor está atento ao menor sinal de "verdasco" e torce o nariz de desagrado. O verde deve ser guardado para a salada, não para o copo !
 
Agora que começamos a super o conhecimento da botânica, descobrimos o reino animal. Eventualmente levados pela glória dos tintos franceses, que no seu lento caminhar para a imortalidade, envolvem a sua caricia frutada com leves sugestões a couro, ou mesmo por alguns dos famosos vinhos espanhóis louvamos também as notas animais como sinónimo de qualidade. De novo a confusão entra em cena. Os aromas de estrebaria e de suor animal nascem apenas das más reduções, das fermentações incorrectas, da contaminação e são tomadas por alguns como sinal de distinção. Um pouco de higiene por favor! Quando nos pedem para decantar uma garrafa duas ou três horas antes de a poder beber sem que os maus odores nos sufoquem, estão apenas a indicar um remédio para a doença que o vinho padece. Perfeita insensatez esta, que o consumidor consciente, aquele que gosta de complexidade, certo, mas limpa e frutuosa, recusa com razão. Que não haja duvidas, se um vinho tem odores a estrebaria, o seu lugar é no estábulo!