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Excelência e perigos
 
Autor: Rui Falcão
Data: 8 de Outubro de 2002
Tema: Opinião
 
Excelência e perigos
No recém editado "Guia dos Vinhos Portugueses" de João Paulo Martins (publicações Dom Quixote), fiquei impressionado com o elevado número de vinhos com classificações iguais ou superiores a Muito Bom + (em concreto 77 vinhos com Muito Bom + e 21 vinhos com Muito Bom + / Excelente), quando ainda há poucos anos apenas se contavam uma dúzia, e muito especialmente, gostei de confirmar a diversidade da sua origem. Confesso que foi uma grata surpresa para alguém como eu, que defende as imensas possibilidades vitivinícolas do nosso país, o tal das mil castas e quase todos os microclimas imagináveis. Não é de estranhar que face aos já esperados Alentejo e Douro, se juntem vinhos de Alenquer, Ribatejo, Beiras, Setúbal, Bairrada, Vinho Verde, Dão, Bairrada...

Subsistem poucos recantos do país onde não tenha ainda aparecido um tinto perfumado de aromas frutados e especiados, com o desejável toque mineral e a boa madeira ressoando nas suas profundidades tanínicas. E não são apenas vinhos elaborados com Touriga Nacional e Tinta Roriz em todas as suas variantes, mas também com Encruzado, Alvarinho, Touriga Franca, Tinto Cão, Tinta Caiada (Bastardo), Alicante Bouschet, Alfrocheiro Preto, Trincadeira e Baga. Sozinhas em monocastas ou na companhia de outras castas nobres perfeitamente aclimatadas como Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, ou sobretudo Syrah. Todos estes vinhos formam uma imagem satisfatória, verdadeiro paradigma do que pode fazer a nossa enologia, assim o queira.

Mas há que ter cuidado que daqui também pode resultar um perigoso sentimento de auto satisfação que nos adormeça, com louros tão escassos que apenas cobrem uma ínfima parte da nossa realidade. Porque no fundo estamos a falar de vinhos que, no seu conjunto, provavelmente não superam cem mil garrafas, uma gota de vinho no oceano da nossa produção vinícola. Têm um carácter mais simbólico que real. São marcas de prestígio, elaboradas em quantidades muito pequenas, quando não mesmo insignificantes, geralmente a preços desorbitantes. É maravilhoso que se demonstre que este tipo de vinhos pode ser feito em Portugal, mas de nada serve ficarmos a olhar para o nosso umbigo enológico, por muito expressivo que este seja. A dura realidade é que temos de competir em mercados internacionais contra poderosas máquinas de venda e marketing como as da Austrália, África do Sul ou Espanha, e aqui infelizmente demonstramos mais fraquezas que virtudes. São mercados onde a equação qualidade/preço é levada muito a sério, um terreno onde podemos jogar se formos capazes de conter os preços e aumentar a qualidade, não de alguns, mas da imensa maioria dos nossos vinhos, ainda mais próximos do granel que da glória.