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Os Melhores do Mundo
 
Autor: Tiago Teles
Data: 27 de Janeiro de 2004
Tema: Opinião
 
Os Melhores do Mundo
Actualmente assistimos a um sentimento de grande optimismo em relação aos vinhos portugueses. A imprensa especializada não se cansa de elogiar os nossos produtos, dando-lhes classificações elevadas e catalogando-os como "os melhores do mundo, os campeões ibéricos e outros que tais". Parece que, de um momento para o outro, Portugal começou a produzir um elevado número de vinhos de grande nível, capazes de concorrer com as melhores marcas da enologia internacional.

Esta visão "dourada", da enologia portuguesa, feita à custa de omissões e simplificações, faz transparecer para a opinião pública uma realidade um pouco desfasada. Pretende-se criar um cenário cor-de-rosa, seguindo o rumo do faz de conta para agradar a gregos e a troianos. Na verdade, a crítica internacional continua muito mais receptiva aos tradicionais vinhos franceses, italianos e aos "novos" australianos e chilenos.

No entanto, e admitindo que o vinho português atravessa uma tal época de excepção, torna-se difícil encontrar tal paralelismo, leia-se de sucesso, na sociedade civil e no tecido produtivo português. Basta olhar para o desempenho médio das nossas universidades, incluindo as de enologia, e para a falta de competitividade das empresas nacionais, para concluir que o vinho português é um "universo à parte". Para compreender melhor esta diferença abismal, cito um artigo de opinião de José Manuel Fernandes no jornal o Público: "Portugal importa 90 por cento da energia que consome. (...) Portugal gasta mal essa energia que importa e que nos sai muito cara. Temos casas mal construídas e sistemas de aquecimento e arrefecimento mal concebidos, transportamos as mercadorias quase todas por rodovia, boa parte da indústria está obsoleta, desinvestimos numa rede eléctrica onde, hoje, as perdas são imensas (mais de dez por cento), e por aí adiante. Portugal também cresce mal do ponto de vista energético, pois por cada unidade que acrescentamos ao produto acrescentamos um aumento do consumo de energia desproporcionadamente maior. Pior: em 2003 o produto contraiu-se, mas o consumo de energia subiu cinco por cento, o que é ainda mais dramático".

Ou seja, num país onde as questões de fundo estruturais são um falhanço, é de crer que os vinhos produzidos em Portugal sejam "os melhores do mundo"? Será que estamos perante uma situação de conveniência para produtores e consumidores? Será que este é o caminho certo? Penso que não. Diria mesmo que o "vinho português" prefere viver na ignorância infinita, acreditando que a verdade não está nos acontecimentos quotidianos e na "chatice" da vida. Prefere-se viver num sonho "cor-de-rosa", fugindo dos problemas reais da viticultura nacional.

Infelizmente, este pseudo "estado de graça" é em muito suportado pelo poder, por vezes assustador, dos meios de comunicação. Na verdade, quando utilizados de determinada forma a imprensa, a rádio, a televisão e o cinema tornam-se indispensáveis para a sobrevivência da democracia. Da mesma forma são, e foram, uma arma poderosa para a manutenção de ditaduras em todo o mundo. O seu poder conduz ao condicionamento de massas. Ou seja, é contrário ao progresso e ao desenvolvimento, conduzindo cada vez menos à saúde mental e transformando o consumidor num autómato.