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Prazeres Analíticos
 
Autor: Tiago Teles
Data: 07 de Janeiro de 2004
Tema: Opinião
 
Prazeres Analíticos
Por vezes, e como em tantas outras situações da nossa vida, surgem questões enófilas que nos obrigam a reflectir e equacionar posturas anteriormente adoptadas. Recentemente questionaram-me sobre se o meu perfil analítico, aquando da apreciação de um vinho, me retirava prazer na prova. Perguntaram-me, inclusivamente, se me conseguia emocionar com algum vinho, o que me levou a reflectir sobre os últimos tempos de prova.

Na maioria dos casos, o prazer que retiro com a análise analítica de um vinho é sempre superior ao simples acto de beber despreocupado. Porquê? Porque o prazer da descoberta e do conhecimento é ilimitado. Uma análise analítica leva-nos a descobrir nuances e subtilezas que outro tipo de análise deixaria passar despercebidas. Em certas situações a emoção derivada dessas descobertas é de tal forma intensa que nos conduz invariavelmente a esta paixão pelo vinho. No entanto, é normal que no caso de vinhos com algum defeito (excesso alcoólico, taninos amargos, acidez "mal" corrigida, etc) esse prazer comparativo seja potencialmente inferior ao de um provador despreocupado.

A componente analítica é também crucial para que se possa emitir uma apreciação justa e real sobre um vinho. E isto porque não falamos de um simples material líquido mas de pessoas e vidas que o idealizaram e criaram. Na verdade, criticamos uma componente humana e não material (ao contrário do que muita gente possa imaginar). Uma garrafa de vinho é um "produto" que fala de castas, pessoas e lugares. E, por essa razão, a classificação de um vinho não pode ser leviana. Deve, sim, ser suportada por uma forte componente analítica, enquadrada num espaço e tempo histórico.

Coloca-se, no entanto, a questão: Será que o evoluir do grau de exigência limita o número de emoções positivas sobre um vinho? Será que um provador exigente se emociona menos vezes que um provador normal?

A emoção de cada indivíduo deriva do apurar dos seus sentidos e da sua experiência de vida. No meu caso específico, a formação base, ligada à engenharia, contribuiu para o meu perfil analítico e metódico que, felizmente, me permitiu aprender e evoluir rapidamente. Necessária é a autoformação contínua neste processo evolutivo. Como provador, sou capaz de retirar prazer de uma textura sedosa. Sigo a evolução de um determinado aroma no palato. Delicio-me com um sabor ou aroma particular. Quem não sentiu já o prazer de descobrir um cheiro familiar na prova de nariz?

Felizmente, quanto mais sabemos mais temos para descobrir. Considero, no entanto, que o grau de exigência não deve limitar os horizontes. Convém não esquecer que o vinho é um prazer simples - o vinho deve saber bem desde o início da prova. Por isso mesmo, e por forma a me defender da rotina "analítica", adoptei a postura de não pontuar ou analisar todos os vinhos que provo. Em muitos casos, limito-me simplesmente a usufruir do prazer de beber um vinho em boa companhia. Além de ser capaz de retirar imenso prazer de um vinho simples.