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| Que futuro? |
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| Autor: Tiago Teles |
| Data: 26 de Agosto de 2003 |
| Tema: Opinião |
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| Que futuro? |
A entrevista dada pelo enólogo João Portugal Ramos à revista de vinhos, na sua edição nº164 de Julho 2003, acentuou as minhas dúvidas sobre o futuro do vinho português no panorama internacional. O contacto que venho tendo com outras realidades enófilas florescentes colocou a nu várias fragilidades empresariais portuguesas, mais concretamente, no mundo das tecnologias de informação (Internet e vendas). A aumentar o meu cepticismo, junta-se o artigo que li recentemente sobre a aprovação, pelos EUA, de um Tratado de Comércio Livre com o Chile. Este acordo prevê que, a partir de 2005, deixem de existir barreiras comerciais entre os dois países o que contraria o caminho indiciado pelo estudo Porter, de que os Estados Unidos seriam uma prioridade para as nossas exportações.
Como refere o enólogo na sua entrevista, os erros foram cometidos sucessivamente no passado: "porque é que as adegas não tiveram a sensatez de agarrar nesse dinheiro e, em vez de o darem aos sócios, fazerem uma promoção lá fora?". E como tão bem frisou porque é que "Portugal gastou 500 milhões de euros nas vinhas, outros 500 milhões de euros nas adegas, mas não gastou nada nas vendas?"
A resposta parece-me evidente: há uma falta de mentalidade e de filosofia empresarial moderna e competitiva no mundo do vinho português. Há também uma falta de preparação tecnológica para enfrentar novos desafios. Os vinhos comercializados reflectem essa realidade - a maioria dos vinhos colocados no mercado têm uma má relação preço/qualidade e a apresentação é usualmente má.
O enólogo refere ainda que uma das soluções passará por "uma finta de corpo, primeiro mostrando bons vinhos dentro daquilo que eles conhecem (entenda-se mercado internacional, e castas como Cabernet Sauvignon e Merlot) e, depois de estarmos no mapa, mostrar algo de nosso. Os produtores têm de puxar para vinhos mais fáceis". Na verdade, os vinhos têm de ser mais fáceis, de perfil directo e preço razoável mas, isso é possível com as nossas castas primitivas. Ao contrário do que se afirma, para se exportar vinhos são necessárias ideias e castas diferentes. Ou seja, precisa-se do potencial da Touriga Nacional, do Aragonês, do Alvarinho, etc. É imperativa uma atitude empresarial dinâmica, original e arrojada.
Com isto, torna-se evidente que já não chega ter bons enólogos e boas adegas. São necessários gestores e economistas à altura dos desafios que se colocam. O que se sente no tecido empresarial do vinho em Portugal é um desajuste das pessoas aos trabalhos que realizam. A não ser que a mentalidade reinante nos vinhos portugueses julgue ser possível enganar alguns homens de negócios (algumas vezes), políticos (a maioria das vezes) e os consumidores (quase sempre). Referenciando os vinhos de "combate" (até aos 15 euros), suspeito que o mercado português venha a necessitar, num futuro próximo, de algumas medidas mercantilistas - proteja-se até sermos suficientemente fortes para que não tenhamos de nos preocupar com a concorrência externa.
Portugal, enquanto país seguidor, (estamos alguns anos atrasados nas vendas) só ganhará algo se avançar para novas tecnologias e mentalidades (eliminar atrasos significa justamente isso). Não devemos desperdiçar a nossa Vantagem Comparativa no mundo do vinho - matéria prima de qualidade, terroir, acessível e barata. O objectivo é garantir uma sólida parcela de mercado e uma crescente capacidade de produção. Neste aspecto, os produtores são mais importantes que os consumidores - qualquer um pode comprar mas nem todos conseguem produzir. É imperativo que os responsáveis procurem esclarecer e definir metas para o vinho português. Os melhores que escolham os meios.
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