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Terroir ou terroir? Descubra as diferenças...
 
Autor: Pedro Gomes
Data: 18 de Novembro de 2002
Tema: Opinião
 
Vou fazer-vos uma confidência: ultimamente tenho sofrido com insónias e, tudo por causa do termo terroir. Não, não estou a brincar! As voltas e reviravoltas sucedem-se e, quando dou por mim já o ponteiro dos relógios marca as 3 ou 4 da madrugada. Tudo isto porque tenho constatado que o termo terroir é empregue, cada vez com maior frequência, numa acepção que está longe de corresponder aquela que assimilei nas obras maiores da vitivinicultura. Não há ocasião em que não me depare com alguém, leigo ou entendido, para quem o termo terroir não seja sinónimo de "terreno", numa referência clara ao local de implantação de uma vinha. Não faço a mínima ideia se se trata de uma tradução aportuguesada do termo francês -as letras iniciais são as mesmas-, mas sempre me ensinaram que o emprego do termo se justificava porque não existia, nem em Portugal nem noutra qualquer região do globo, um termo que sintetizasse a ideia inerente à expressão francesa. No fundo, algo de semelhante ao que se passa com o termo marketing, neste caso, de origem anglo-saxónica.

Pois, qual não é o meu espanto quando se usa e abusa do termo, em expressões do tipo "... este terroir é excelente, porque está exposto a Sul", "nenhum terroir se compara ao nosso porque os solos são isto... e aquilo", "terroir igual a este não há, porque...blá, blá, blá". Como se deprende, em todas estas expressões há uma alusão clara aos terrenos. Intriga-me, pois, constatar que, pelo menos no nosso país, os vocábulos terreno e terroir funcionem como sinónimos. Sempre aprendi que o termo terroir era o resultado de uma combinação de factores onde se incluiam, entre outros, a influência do clima, nas suas diferentes componentes -macro, meso e microclima-, do substrato geológico, da exposição, da altitude, do declive, do tipo de castas, da idade dos encepamentos, do sistema de condução das vinhas e da intervenção humana, aos níveis da vinha, da adega e da cave de estágio. Um rol infindável de factores físicos e humanos que, em boa verdade, tornam qualquer terroir único.

O que os distingue é o efeito que produzem na qualidade final do vinho. Ou são bons, ou são maus... mas são todos únicos. As condições que levam ao aparecimento de um terroir são irrepetíveis no tempo e no espaço. Terrenos argilo-calcáreos... há muitos! Vinhas expostas a Sul... são a pontapé! Encepamentos centenários... quantos querem? Haja tino! Haveria, pois, todo o interesse em separar as águas. Ou somos rigorosos na forma como recorremos ao emprego do termo ou passamos a admitir uma dupla acepção. Em sentido lato, dando cumprimento à "legislação" francesa ou, em sentido estrito, uma originalidade lusa, em substituição do vocábulo "terreno". Não me faz confusão mas, não percebo a utilidade de tal prática. Se é terreno que se quer dizer... diga-se terreno. Nada mais simples! Não vos parece?


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