Cumpriu-se o ritual! Éramos cinco, como é da praxe, e desta feita as despesas da casa ficaram por conta de Rui Falcão. Um anfitrião no seu melhor: não estavam lá a "cama... e a roupa lavada", mas estavam a mesa, as iguarias e, acima de tudo, os néctares. Para além dele, os comensais do costume: Paula Costa, João Quintela, Tiago Teles e Pedro Gomes, num "téte à téte" com um quinteto de tintos de arromba. Uma selecção para rasgar horizontes, quase ecuménica, diríamos, mesmo, didáctica, para se aquilatar do posicionamento dos vinhos nacionais no actual panorama internacional. Um verdadeiro périplo vinícola, de cariz multinacional, do Velho ao Novo Mundo, do monovarietal ao lote, da potência à elegância. Um pouco de tudo, para todos os gostos. Soberbo, memorável... para mais tarde recordar.
Para aquecer as hostes, e à margem da prova, foi servido um Vinha Formal da colheita de 1998, um monovarietal Bical, fermentado em madeira, da autoria de Luís Pato. Um branco onde sobressaem as notas amendoadas e o cunho tostado da madeira de estágio e que, com a permanência no copo e o aumento da temperatura, adquire notas apetroladas e uma nuance adocicada resultante do açúcar residual. Uma boca cheia, muito gorda e untuosa, a exigir pratos mais condimentados e, de preferência, para o Inverno. Não foi consensual.
Seguir-se-ia aquilo por que todos ansiavam: uma selecção de "5 magníficos", servidos duplamente às cegas: nem rótulos nem sequência... só para espevitar a coisa. O grande vencedor viria a ser o Balmoral Syrah 1997, o topo de gama da Rosemount. Um tinto impressionante, tenso, uma espécie de rastilho à espera que lhe peguem fogo. Um protótipo de como potência e elegância se podem combinar e, acima de tudo, um caso sério de longevidade em garrafa. Pura pedofilia... de braço dado com prazer genuíno.
O segundo lugar do pódium ficaria reservado para o Grand Cru Classé de Bordéus, o Château Pichon Lalande. Um contraste flagrante com o vencedor, um estilo completamente oposto. Muito estruturado, com um perfil onde o vigor e a potência dão lugar à elegância, ao equilíbrio, à harmonia. Um tinto memorável, mesmo de um ano menor, dentro de uma linha "se te distrais... nem dás por mim".
O "bronze" estaria reservado para o Stag's Leap Cabernet Sauvignon. Um Cabernet irrepreensível, contundente nos aromas, imensamente fresco, a puxar à elegância, sem que ninguém se aperceba dos 14,5% de força alcoólica. A repetir.
Seguir-se-ia, em quarto lugar, o Leda Viñas Viejas da colheita de 1999, um Tempranillo "sin D.O.", oriundo de Castilla y León. Ninguém fica indiferente a tanta cor, força e vigor e, nem a "fina" rusticidade esconde as potencialidades deste Tinta Roriz... perdão, Tempranillo. Excessivamente jovem, mas suficientemente atraente para que se volte a pensar nele lá para 2010!
E "last... but not least" o representante nacional, o Esporão Garrafeira 97, emblema maior da Finagra, tido como um dos grandes tintos nacionais. Um "lanterna vermelha" que, contrariamente ao que se possa pensar, se portou a bom nível, capaz de ombrear com a fina flor da vinicultura internacional. Por comparação com os outros, faltam-lhe o aprumo e o rigor na elaboração e, acima de tudo, uma evolução em crescendo. Com o tempo no copo perde na mesma proporção em que os outros ganham.
Para o final, e a título de curiosidade, ainda estava reservado um pequeno "mimo": um vinagre austríaco, feito a partir de um Riesling Trockenbeerenauslese. Fantástico, numa sublime combinação agri-doce, particularmente desconcertante dada a macieza e suavidade de conjunto. Imperdível, mesmo para aqueles que estão familiarizados com os acetos balsâmicos de Modena.
A fechar o festim um Quinta da Cavadinha Vintage Port 1987, da Warre's. Esteve longe de deslumbrar mas reuniu o consenso dos comensais: faltam-lhe estrutura, garra e comprimento final para fazer jus ao termo vintage. Paciência.
Mais uma vez saiu reforçada a ideia de que o gosto pessoal é indissociável da prova organoléptica. Mas, independentemente das preferências de cada um, ressaltam duas ou três conclusões:
- os vinhos estrangeiros, melhores ou piores, são, regra geral, irrepreensíveis no seu fabrico, não têm defeitos, e as opções de escolha fazem-se por discriminação positiva;
- independentemente da sua força alcoólica, os vinhos estrangeiros carregam uma frescura notável e, raramente se lhes pode apontar algum desequilíbrio alcoólico;
- o nariz e a prova de boca mostram que os vinhos portugueses, salvo raríssimas excepções, não alcançam a longevidade dos seus congéneres estrangeiros.
Conclusões a que se chega depois de uma prova inesquecível, uma pequena extravagância, em tom informal, despretensiosa, mas que não deixa de ser inquietante quanto ao lugar dos vinhos portugueses no panorama internacional. A velha história de que "temos os melhores vinhos do mundo" não faz qualquer sentido e é reveladora de um certo provincianismo e atavismo que tem os dias contados. Temos grandes vinhos, alguns de nível mundial, mas também temos muita bazófia. Não nos faria mal nenhum um pouco mais de comedimento e contenção. Nesta época de globalização ninguém se compadece desta visão paroquial que é o "Portugal... dos pequeninos". Olhemos à nossa volta, tenhamos o bom senso de perceber que não estamos sózinhos e, acima de tudo, compreender que há quem ande cá há mais tempo. A humildade cai bem... e bebe-se.
Copyright © 2002 Os 5 às 8 |