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Prova n.º 29 de Os 5 às 8 (Lisboa) 23 de Abril de 2003
E&E Black Pepper199818,5
 100% SyrahBarossa Valley Estate
 14,5 % volBarossa (Austrália) 
Calvario200017,8
 Tempranillo, Garnacha e GracianoFinca Allende 
 14 % volRioja (Espanha) 
Guigal Châteauneuf-du-Pape199817,6
 Syrah, Grenache e MourvédreGuigal 
 13,5 % volChâteauneuf-du-Pape (França) 
Ridge Lytton Springs199817,3
 Zinfandel, Petite Sirah, Mataro, Carignan e Alicante BouschetRidge 
 14 % volSonoma Valley (USA) 
Batuta199917
 Tinta Amarela, Tinta Roriz e Touriga FrancaNiepoort 
 14,5 % volDouro 

Crónica
 
A coisa estava preta! Em boa verdade, o espectro oscilava entre delicadas tonalidades rubi e o negro com laivos granada/violáceos mas, para todos os efeitos, o cenário era "negro". De tempos a tempos, olhávamos circunspectos uns para os outros indagando do mal que havíamos feito a Deus para merecer tamanho castigo. Porquê nós? E, no fundo, a coisa era tão simples quanto isto: cinco copos com outros tantos vinhos para serem sujeitos ao crivo da apreciação organoléptica. Depois disso, todos o sabíamos, viria o puro e singelo prazer hedonista. O costume. Uma espécie de rito de passagem...

Uma coisa era certa: mais uma vez, a velha Europa via-se confrontada com a enologia do Novo Mundo. Suspeitava-se que andariam por ali a escola francesa e um "top-flight" australiano. Houve quem chegasse a levantar a hipótese da casta Tempranillo marcar presença, mas ninguém arriscou numa «denominación» e a dúvida pairou no ar. Alguém mais ousado alertou os restantes comensais para a eventualidade de estarmos perante um "Chryseia", o que, verdade seja dita, não seria nenhum disparate. Mas a coisa ficou por ali. Para além disso, pouco mais se discernia e o aumento da tensão obrigava a um esforço redobrado das nossas capacidades sensoriais.

No meio de tanta incerteza e indefinição, ecoavam-me na memória as palavras convictas do meu filho de três anos que nunca hesita diante de um vinho que lhe chegue ao nariz: "Cheira bem... e tem um gande bouquet!". Bem vistas as coisas, não se perscrutavam por ali muitos aromas terciários mas, verdade seja dita, da ingenuidade do seu tenro saber eu retirava a única ilação possível: os vinhos cheiravam bem... muito bem!

A prova tinha ficado a cargo de Rui Falcão e cada um de nós, ao seu jeito, procurava encontrar na sua postura enófila a mais pequena dica que pudesse dissipar as dúvidas quanto aos vinhos em prova. Na sua garrafeira repousam algumas "estrelas" da enologia mundial e a sua visão globalizante e, porque não dizê-lo, apátrida - outra coisa não seria de esperar de um apaixonado e profundo conhecedor de vinhos -, aumentavam as probabilidades de se andar a vaguear por esse mundo fora. Tudo palpites, especulações. Um mundo de conjecturas. E pouco mais...

Mas, e se assim não fosse? E se as suas intenções fossem outras? E se as suas opções se tivessem restringido ao universo nacional? E se ali pelo meio houvesse um vinho de qualidade claramente inferior à média, com o intuito de confundir a "rapaziada"? As expressões de sofrimento nas nossas faces deviam ser tais que, a dado momento, o nosso anfitrião decidiu "levantar a ponta do véu": "São todos tintos!" Grande ajuda, pensámos nós. Naquela altura era mesmo do que precisávamos: o sarcasmo, envolto no mais puro e duro masoquismo. E, contudo, no meio de toda aquela angústia, percebia-se que a emoção era crescente.

Aparentemente conformados, percebemos que pouco mais nos restava do que partir para a "batalha": 5 "alminhas" embasbacadas a olharem para os copos, volteio aqui, volteio ali, ora chega ao nariz, ora leva à boca. No meio de tanta incerteza, acabávamos por sucumbir e, a repetição de gestos era inevitável. E assim foi durante a hora seguinte. Só visto...

É esse o fascínio das provas duplamente cegas. São ingratas? E de que maneira! São desconcertantes? Sem sombra de dúvida! Mas são, de forma inequívoca, a única modalidade de prova que proporciona tarimba e traquejo, fomenta a sensibilidade e "feeling" vínicos e, acima de tudo, incute à vontade, confiança e imparcialidade às nossas capacidades de degustação.

Costuma dizer-se que depois da tempestade vem a bonança e este tipo de provas não é excepção à sabedoria popular. Finalmente, era chegada a hora de desvendar o mistério. Chegara o momento de descodificar as garrafas.

O vinho vencedor recolheu a unanimidade dos presentes, facto que nem sempre acontece, e que é sintomático da sua superior qualidade. À nossa frente surgia o imponente E&E Black Pepper, da colheita de 1998. Cepas sexagenárias, a omnipresente Shiraz e a mais-valia de um estágio que combina as madeiras de carvalhos americano e francês permitem a Stuart Bourne elaborar o topo de gama da Barossa Valley Estate. O vinho é absolutamente descomunal, combinando de forma magistral profundidade e elegância aromáticas. Fruta muito madura, madeira perfeitamente encaixada no conjunto e total ausência de qualquer vestígio alcoólico. Um protótipo de densidade, poder e sensualidade, com as notas achocolatadas a combinarem com o fruto preto, a acidez perfeitamente entrosada no conjunto, uma compleição tânica com um polimento assombroso e um final de boca ao melhor estilo "Duracell". E dura... e dura! Um vinho incrível, puro "glamour" e, seguramente, uma obra notável da enologia australiana.

Em segundo lugar ficou um dos vinhos com maior impacto mediático em Espanha: o Calvario de 2000. Miguel Ángel de Gregorio está de parabéns porque conseguiu captar na perfeição o conceito de «alta expresión» riojiano». Um verdadeiro "vino de pago", ao melhor estilo internacional, um Tempranillo -90%- mesclado com as castas Garnacha e Graciano e cuja exuberância serve de contraponto ao estilo mais contido do celebérrimo "Aurus". Um vinho levado aos extremos, um puro concentrado de frutas e compotas, donde emanam notas mentoladas, ligeira torrefacção, toque anizado e nuances empireumáticas. Um nariz marcado por enorme doçura que poderia fazer antever um «xarope» na boca. Nada disso acontece: pastoso, fruta muito compactada, no limite da maturação, mas com uma frescura imensa a compensar-lhe o perfil "guloso". Está longe do seu apogeu e, acima de tudo, está muito distante do classicismo riojiano que, durante décadas, se "encharcou" em carvalho americano, usado.

Quanto ao terceiro classificado percebeu-se-lhe a matriz europeia. Tratou-se do Châteauneuf-du-Pape, da colheita de 1998, produzido por E. Guigal. Um Côtes du Rhône, quase "de combate", com mais de 100 mil garrafas produzidas anualmente. Grande complexidade aromática, com um fundo mineral e terroso a combinar-se com notas de geleia e nuances amanteigadas. Boca muito macia, um portento de acidez, óptima textura e um longo final marcado por uma excelente estrutura de taninos. Um vinho elegantíssimo, impregnado de exotismo. Em suma, diferente...

O penúltimo lugar estaria reservado para um vinho vindo das terras do "Tio Sam", concretamente dos solos de aluvião na encruzilhada dos vales Dry Creek, Alexander e Russian River: o Lytton Springs 98, da Ridge. Um tinto californiano alicerçado na casta Zinfandel -77%-, complementada com Petite Syrah, Carignane, Mataro (Mourvèdre) e Alicante Bouschet, assinado por John Olney e com a supervisão de Paul Draper, um dos mais conceituados enólogos norte-americanos. Surpreende pelo estilo europeu, eventualmente francês e, se é verdade que todos lhe reconheceram a excelência na prova de boca, houve alguma dissonância na apreciação olfactiva. Toque mineral, algum vegetal fresco e ténue presença animal. Um ataque e uma evolução muito delicados, quase femininos, culminam num final de boca portentoso. Controverso ao nariz mas consensual na boca.

Em último lugar ficaria a grande surpresa da noite: o Batuta de 1999 da autoria de Dirk Niepoort e Jorge Serôdio Borges: meio mundo não fala noutro vinho, e nós próprios temos enaltecido as suas virtudes. Ninguém lhe reconheceu o berço - nem Portugal e muito menos o Douro- e nem as oscilações pontuais entre os presentes servem de atenuante para que as expectativas fossem maiores... muito maiores. Que se terá passado? É inegável que o vinho precisa de mais tempo em garrafa, mas mesmo neste estádio precoce seria de esperar um melhor envolvimento do álcool e maior finura na estrutura de taninos. O representante nacional acabaria por ser o único vinho a ressentir-se da elevada graduação. E, no entanto, todos os vinhos em prova revelavam teores alcoólicos muito próximos.

Nestas alturas vem sempre à baila a velha conversa: "o vinho ainda está fechado", "cada garrafa é uma garrafa", "parece estar a atravessar uma fase transitória", "as provas são altamente subjectivas" e coisas do género. Tudo isso é inegável, mas estamos convencidos de que o que mais influiu na apreciação final foram os termos de comparação. O vinho foi confrontado com autênticos «peso-pesados" do panorama vinícola internacional e, nessas circunstâncias, acabam por vir à tona os velhos "traumas" da enologia portuguesa: o desequilíbrio alcoólico, a agressividade tânica e a ausência de frescura no palato.

A fechar, e extra "concurso", um colheita tardia de 1998, produzido por Peter Lehman. Um monovarietal Semillon que, como vinho de sobremesa, acabou por desiludir. Não consegue captar as virtudes da "Botrytis" e surge-nos plano, débil na acidez, algo enjoativo, e modesto na persistência final. Uma decepção...

Continuamos a insistir: desenganem-se os que julgam que o próximo salto da enologia portuguesa depende exclusivamente das formas de "pensar" e trabalhar a vinha. Numa época em que se procuram as maturações extremas e as macerações são levadas ao limite urge conter a percepção alcoólica e, acima de tudo, extinguir o carácter cortante e secante dos taninos. Já conseguimos chegar à potência. A questão que agora se coloca é outra e é tão simples quanto isto: "Quanto tempo levaremos a conciliar essa potência com a elegância"?

Lá fora isso já se consegue e esta prova é disso exemplo cabal. Não acreditam? Então, experimentem este E&E Black Pepper de 1998. Não é preciso ser-se vidente para perceber onde queremos chegar. O vinho é deste planeta mas para quem vive circunscrito ao universo nacional julgará que está a beber um vinho doutra galáxia. Se é caro? Claro que é! Como o são um Bentley, um Rolex ou uma ínfima porção de Beluga. Mas, aí, a culpa não é nossa!

Copyright © 2003 Os 5 às 8