O parto foi fácil, a gestação é que foi complicada...
Após aproximadamente 3 meses de existência, o Clube Optimus Vinhos conseguiu realizar a sua primeira prova cega. Foi uma gestação em que o mais importante foi beber... conhecimentos, para que tudo corresse bem.
Juntaram-se no princípio do ano 4 amigos, curiosos, apreciadores, mas muito amadores nestas coisas. Delinearam algumas acções (compra mensal para formar garrafeira, discussão e envio de notas de prova e de aquisição, trocas de informações e pesquisa, muita pesquisa, que ainda agora começou).
Logo nos primeiros tempos leram sobre provas em grupo, e as provas cegas levantaram de imediato a curiosidade.
A ocasião foi agendada para 25 de Abril, juntando-se o útil aniversário de um dos membros (a quem coube a organização) ao agradável pensamento da primeira prova cega. A única regra era investigar antes de comprar, para escolher bem, e como o céu não podia ser o limite, estabeleceu-se os 15 Euros. Foram distribuídas regiões a cada um dos participantes (3 membros mais 1 convidado honorífico), ficando Dão, Douro, Alentejo e Bairrada/Beiras. Algumas regiões ficaram de fora pois não havia capacidade para provar tudo no final.
Cada "comprador" sabia apenas da sua zona, desconhecendo as restantes. À data e hora combinada, as eleitas chegaram devidamente camufladas, de modo a que nem o organizador aniversariante saberia quais as escolhidas. Foram numeradas por ordem de chegada a casa, e seria nessa ordem que iriam para a mesa. Todas devidamente acompanhadas por uma refeição preparada com o prazer e gosto pela cozinha de quem recebia o evento. Além do painel de provadores do Clube (Pedro Brandão, Sérgio Brota, Joaquim Carvalho, João Duarte), foi provador convidado Nuno Brandão e estiveram à mesa mais 6 convidados, fazendo um total de 11 convivas.
A título de surpresa, e como parte da entrada do jantar, a organização criou uma pequena prova de Brancos.
Assim, na primeira parte, a primeira mini prova cega de Brancos COV, teve os seguintes intervenientes:
-Catarina 2001 (Terras do Sado)
-Quinta dos Roques Encruzado 2001 (Dão), prémio Melhor do Ano João Paulo Martins (Vinhos de Portugal 2003)
Esta prova foi acompanhada por Saladinha de Orelha de Porco na Coentrada, Saladinha de Lulas com Chouriço e Salsa, Cogumelos Salteados no Bacon com Oregãos e Queijo de Cabra de Idanha.
Serviu como aperitivo à prova principal e como estimulador das papilas gustativas.
Nas provas todos sentiram que o lote que compõe o Catarina (onde pontifica o Chardonnay) torna o vinho mais aromático, mais encorpado, mais saboroso. Na boca deixa um ligeiro toque abaunilhado, nota-se o estágio em madeira (sur lies e sujeito a battonage), a acidez certa e o final seco. O Quinta dos Roques, feito com casta Encruzado, é um vinho mais delicado, frutado e leve. Com o aroma mais mineral e com alguma fruta, deixa na boca a sensação de delicadeza acima de tudo e a madeira sem exageros. Talvez as entradas fossem algo condimentadas para um vinho deste tipo, pois todos elegeram o Catarina como o preferido.
A prova cega de Tintos contou com a participação por ordem de chegada à mesa de:
-Luís Pato Quinta do Ribeirinho 1ª Escolha 2000 (Beiras)
-Quinta do Cabriz Garrafeira 1990 (Dão)
-Quinta de Mosteirô 1998 (Douro)
-Vila Santa 2001 (Alentejo), prémio Melhor do Ano por região Revista dos Vinhos
-Porta Velha 2000 (Trás os Montes), este adicionado pela organização
Para aconchegar as provas ao estômago, foi servida uma Sopa da Pedra à Pedro.
A melhor conclusão a que se chegou é que gostos não se discutem. Houve quem classificasse como melhor vinho aquele que outros consideraram o pior (Vila Santa 2001 e Quinta do Cabriz Garrafeira 1990, que conseguiram ser o melhor e o pior, na boca de pessoas diferentes).
Uma classificação feita com a média das escolhas de cada um colocaria a seguinte ordem nos vinhos provados:
1º-Quinta de Mosteirô 1998 (Douro)
2º-Luís Pato Quinta do Ribeirinho 1ª Escolha 2000 (Beiras)
3º-Vila Santa 2001 (Alentejo)
4º-Quinta do Cabriz Garrafeira 1990 (Dão)
5º-Porta Velha 2000 (Trás os Montes)
Revendo agora as provas num ponto de vista pessoal, que não quer de modo nenhum reflectir a opinião geral, mas apenas a minha, faço a seguinte análise, na ordem decrescente da minha preferência.
O Vila Santa mostrou que João Portugal Ramos foi prodigioso no loteamento das castas deste grande Alentejano (Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Trincadeira e Aragonês), criando um vinho com muita qualidade e de referência, principalmente pela acessibilidade e pela quantidade. Denso na cor, desde logo ao meu nariz se realça o Aragonês, nota-se a fruta preta. Muito bom corpo, sente-se na boca de novo a fruta acompanhada pela boa madeira. Final longo e prazenteiro.
O Luís Pato Quinta do Ribeirinho 1ª Escolha foi uma boa surpresa na mesa, pois a falta de contactos com vinhos da recente região das Beiras foi colmatada, e de que maneira. Apesar de ter sido o primeiro provado, foi um vinho que residiu nos sentidos de todos até final da prova, sendo o mais consensual. Cor retinta, melhor na boca do que no aroma, que pareceu algo fechado, mostra que lotear Baga (70%) com Touriga Nacional (30%) é uma excelente opção. Mostrou-se muito equilibrado, com bom corpo, taninos macios e a terminar muito bem.
Coloco a meio da tabela o Porta Velha. Feito por quem faz também o conhecido Valle Pradinhos, mas de gama ligeiramente mais acessível, e de uma zona em que nem todos decidem apostar quando se compra vinho, mostrou-se concentrado no copo. Feito com Tinta Roriz e Tinta Barroca, agradou-me muito no aroma de fruta, cerejas pretas e especiarias. Menos imponente na boca, mostra-se um pouco mais aguerrido que os anteriores, com taninos mais fortes a causar alguma adstringência.
O Quinta de Mosteirô, ficou um pouco aquém do que eu esperava de um Duriense. Apesar de ser um vinho com cor opaca e forte, pareceu-me menos pujante no nariz, lembrando aromas minerais. Na boca deu-me a sensação de ser um vinho chato, com pouca personalidade, apenas correcto, sem surpreender, faltando alguma agressividade.
Por fim, o Quinta do Cabriz Garrafeira. Posso dizer que a região do Dão é das minhas predilectas, mas este Garrafeira já com a bonita idade de 13 anos pareceu-me já ter tido os seus dias. Logo no copo dá a ideia de ser um vinho com pouca concentração, algo diluído. Quando se eleva o copo ao nariz, nota-se que os aromas se perderam no tempo, e com atenção se apanha alguma fruta. Na boca não deixou de me parecer com pouco corpo, apesar de se sentir ainda alguma pujança, possivelmente ganhou bons taninos no processo de criação. Relembra-me uma eterna dúvida: um vinho classificado como Garrafeira no rótulo significa que o podemos guardar em garrafa que só tem a ganhar ou significa que já teve o seu estágio em garrafa antes de sair para o mercado e que devemos consumi-lo quando é posto à venda?
Para rematar, foi servido como auxiliar de digestão Gelado de Limão com Hortelã no Espumante, onde o seleccionado foi um Asti, devido ao contraste entre o adocicado do Espumante com o ácido do gelado.
No final, estiveram à mesa Moscatel de Setúbal JP 1994 e Chivas Regal Royal Salute 21 anos, que foram escoltados por Bolo de Amêndoa e Ovos e Mousse de Chocolate caseira.
Este Moscatel da JP é uma preciosidade. O simples verter no balão mostra uma consistência melosa e macia. Ao nariz chegam logo laranja e nozes, na boca é longo e cremoso, com um belo final que nos dá mais alguns momentos de prazer. Se levarmos então em conta o preço a que se apresenta, comparativamente com os preços incomportáveis de um Trilogia ou de um Moscatel Roxo de uma casa da concorrência, é ouro sobre azul.
Todas as provas foram devidamente acompanhadas por boa disposição e alegria de 2003!!
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