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Esta crónica de prova foi contribuição de um leitor
 
Prova do Barão da Cunha
Prova que decorreu no passado dia 2 de Junho de 2003

Crónica
 

Falar desta prova, é falar de uma experiência muito interessante, muito pedagógica e reveladora da qualidade de alguns vinhos nacionais. Sim! Nacionais! Teve a sua origem, num convite feito pelo amigo Barão da Cunha que gostava de por em prova cega alguns dos seus vinhos, mas com uma particularidade. Seriam vinhos de 1996!

Para esta prova, o "Núcleo Duro" não teve qualquer influência... Não escolhemos ano, castas, região ou produtores, simplesmente nada! O Barão da Cunha ficou responsável por colocar, seis vinhos em prova, não dando qualquer indicação sobre o que levava...aliás apareceram alguns vinhos que eram exemplares únicos da sua garrafeira pessoal! Todos estavam ansiosos por meter na boca tais surpresas. Algumas delas, desconhecidas de alguns provadores...Aliás, todos os provadores constataram que um nome sonante nem sempre é sinónimo de vitória garantida. Por vezes, aparecem uns "out siders" que mostram aos famosos, que também chegam lá!...E nesta noite, foi um menos famoso que ganhou e fez abrir a boca de admiração e surpresa. O próprio anfitrião ficou admirado, pois segundo nos disse, esteve até à última hora para decidir se trazia este vinho, e o juntava a tão grande concorrência. Partilhou igualmente connosco que alguns dos vinhos nem sempre estiveram nas melhores condições de conservação. "Sofreram na pele" e envelheceram com as grandes amplitudes térmicas que existem nos apartamentos. Foram uns guerreiros que conseguiram suportar o calor, frio e a humidade típica das nossas casinhas.

Mas voltemos à prova. Tirando, naturalmente, o Barão da Cunha, todos convidados estavam completamente às "escuras". Para aumentar a qualidade e imparcialidade da prova, os vinhos foram mais uma vez dados a outrém, que não participou na prova, e se responsabilizou por decantar os vinhos e numerá-los pela ordem que bem entendesse.

Neste jantar, os vinhos foram servidos a uma temperatura ideal para este tipo de vinhos; talvez até um pouco abaixo, com o intuito de nos apercebermos de todas as suas potencialidades e evolução no copo.

Os convidados, do Barão da Cunha, para este jantar, foram os seguintes: Oliveira Azevedo, João Quintela, Paula Costa, e o "Núcleo Duro".

As notas dos vinhos reflectem genericamente as opiniões de todos os provadores.

Falemos, então, mais detalhadamente dos vinhos que se provaram.

Como já referimos excelentes exemplares da colheita de 1996. Quase todos eles em grande forma, alguns até prontos a aguentar mais alguns anos. O que seria se estivessem estado guardados, desde o início em condições mais favoráveis...?

O vencedor da noite foi o menos famoso, Quinta do Portal Grande Reserva 1996 um vinho que se portou muito bem tendo em conta a forte concorrência. Fez espevitar as células olfactivas e gustativas a todos os participantes, excepto um que o penalizou. Impôs-se pela elegância, pelo equilíbrio, pela qualidade dos aromas e pela madurez da fruta. Tudo muito certinho, nada pesadão ou enjoativo. O Vinha Pan 1996 que tentou chegar ao lugar cimeiro da prova e quase conseguiu, mostrou mais uma vez que na Bairrada se podem fazer grandes vinhos. Estava muito fresco, com mentol, ginga, compotas e taninos ainda presentes que com certeza lhe darão mais alguns anos para andar. Boa persistência no final da boca.

Nos lugares do meio da tabela e não muito abaixo dos primeiros, ficaram dois vinhos de referência, da história recente do Dão. Interessante serem dois monocasta de Touriga Nacional, uma casta de eleição do Dão. Primeiro o Quinta dos Roques Touriga Nacional 1996 e depois o Quinta da Pellada Touriga Nacional 100% 1996, com uma diferença absoluta de apenas uma décima. O Roques com aromas mais florais, o Pellada com um toque animal, a evoluir depois para notas de bosque, entre os frutos silvestres e a erva molhada. O primeiro a alinhar mais pela elegância, o segundo mais pela robustez. Ambos com boa estrutura e complexidade, final de boca de persistência longa. Têm certamente pernas para ir mais além e dar muito prazer a quem ainda tenha estas raridades.

No 5º e 6º lugar, ficaram desta vez, respectivamente, o Quinta do Roriz 1996 e Vinha do Fojo 1996. Também muito próximos entre eles. Apesar de terem os seus atributos positivos, foram penalizados por terem aromas pouco atractivos, menos intensos e que desapareceram mais rapidamente. Menor corpo e complexidade. Na boca, persistências mais medianas. O Roriz foi o vinho de mais difícil avaliação, para quase todos os presentes. Muitos comentários se teceram ao longo da prova, relativamente a este vinho: "estranho, picante, verdete, muita especiaria, verduras, ervilhas,..." . Um vinho que valeria a pena voltar a provar para tirarmos a "prova dos nove". Houve, no entanto, um provador que o elegeu como o seu vinho da noite.

A classificação, ficou assim ordenada:



Quinta do Portal Grande Reserva199617,4
 Várias castasQt. do Portal 
 13 % volDouro 
Vinha Pan199617,2
 -Luís Pato 
 13 % volBeiras 
Quinta dos Roques Touriga Nacional199616,8
 100% Touriga NacionalQuinta dos Roques 
 13,5 % volDão 
Quinta da Pellada Touriga Nacional 100%199616,6
 100% Touriga NacionalÁlvaro Castro  
 13,5 % volDão 
Quinta do Roriz199616
 Várias castasQt. do Noval 
 13 % volDouro 
Vinha do Fojo199615,9
 Várias castasMaria D. Borges 
 13 % volDouro 




Falemos agora da vertente gastronómica. Mais uma vez fomos brindados com um presunto "Porco preto", mas desta vez veio acompanhado por uma "Cupita de Barrancos", muito saborosa, com gordura saudável, boa textura e muito bem curada.

Como pratos principais degustámos um "Crepe" de pato com cogumelos e natas, aromatizado com coentros e hortelã. Tinha todos os seus ingredientes muito bem ligados e mostrou como se pode confeccionar um prato sofisticado a partir de produtos simples. Depois vieram uns "Secretos" de porco preto, saborosos e acompanhados por um esparregado e feijão verde. "Andamos a ficar viciados em porco preto... ".

O queijo desta vez foi um Terrincho curado! Muito bom, complexo e com pujança aromática. Este queijo não fica nada atrás da famosa triologia de queijos nacionais (Serra, Azeitão e Serpa). Nada mesmo!....

A sobremesa foi um Gelado de limão e natas, coberto de morangos com "calda à moda antiga" e aromatizada com hortelã.

Para acompanhar parte final do repasto foi provado um Porto da Niepoort - Secundum Vintage 1999, que se mostrou austero, vegetal, robusto e cheio. Em jeito de conclusão, uma grande prova e outra já se prepara, ainda para o mês de Junho, se os santos populares nos ajudarem...que o vicio está a aumentar exponencialmente!


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