A curiosidade era muita, junta com a vontade. No entanto não se avistava no horizonte nenhuma prespectiva de fazer uma prova de vinhos brancos ou de vinhos brancos verdes em breve, apesar de já haver alguns planos. Nestas coisas dos grupos é complicado conciliar todas as vontades, disponibilidades, oportunidades, predisposições...
Mas, como diz o sábio povo, a ocasião faz o ladrão. E muitas vezes, se atentarmos à nossa volta com outros olhos, há sempre uma nova maneira de elogiar o vinho na companhia de quem nos está mais próximo, sejam amigos, sejam família. Porque não olhar para quem connosco partilha a mesa como um pequeno grupo de prova? A ocasião decorreu disso mesmo, e ao planear ter à mesa quem mais me é querido, e olhando para todos com um novo olhar, constacto que não podia pedir mais. Ia ter a oportunidade de, ao fresco da sombra, ao lado das brasas onde iam repousar pacientemente belos peixes brancos, junto com alguns apreciadores de vinho, fazer a minha primeira prova cega de verdes.
Há que inovar um pouco e convencer os presentes das vantagens e intenções de, em vez de ser servida nova garrafa apenas no final da anterior, ter em paralelo algumas escolhas cuidadas e ir provando calmamente uma e outra, de modo a poder dizer qual mais apraz, bem como incutir o espírito de prova cega, em que só no final seriam reveladas as seleccionadas.
Reconheço que esperava alguma resistência e hesitação, receava mesmo que me apelidassem de algo menos próprio, mas afinal a adesão foi total a esta nova modalidade de prova.
A prova seria feita no decorrer da refeição, com os riscos inerentes à possível alteração de palatos com o prolongar da mesma, mas no entanto, e apesar de aparentemente não ser o modo mais correcto, é aquele que mais consenso gera para o grau de amadorismo que todos os intervenientes têm.
Certo que ninguém à mesa era provador experimentado, começando por mim, mas reuniam-se o respeito pelo vinho, o gosto pela prova, a valorização dos sentidos, o desfrutar do aroma, o degustar do nectár, o apreciar. Vendo bem, sempre fui educado a comportar-me assim perante o vinho, no fundo quem assim me instruiu e iniciou estava ali, eram o meu mais antigo grupo de provas, com quem comecei, e estava em boa altura de retribuir.
O classificar, nesta ocasião, seria forçosamente secundário, mas as opiniões de cada um seriam recolhidas de forma simples, de modo a que no final houvesse a escolha do que mais apraz ao grupo (o que não quer dizer que seja a melhor para os enófilos exigentes).
Criada a ocasião, fiz-me passar por "ladrão" e tentei fazer uma selecção de alguns vinhos que potencialmente seriam boas apostas. Alguma investigação e troca de opiniões, bem como algumas limitações que encontrei durante a procura, levaram a que fizesse a seguinte selecção:
-Aveleda Trajadura 2001
-Solar de Serrade Alvarinho 2001
-Quinta do Ameal Loureiro 2001
-Muros Antigos Alvarinho 2001
Procurei que fossem vinhos verdes da colheita de 2001, sem distinção entre castas. Os vinhos da colheita de 2002 já começaram sair para o mercado mas ainda é um pouco cedo para se conseguir encontrar aqueles que se querem nessa colheita. Ficam reservados para uma nova prova um pouco mais à frente no Verão.
É certo e sabido que comparativamente com o ano de 2000, o de 2001 trouxe uma vindima mais problemática, mas não é por isso que se deixa de ter bons vinhos verdes, e era isso que se iria tentar comprovar.
No final da prova a recolha de opiniões ditou que a média das classificações individuais ficasse assim:
| 1º | Quinta do Ameal Loureiro | 2001 | Média: 3,4 pontos |
| | 100% Loureiro | 10,5% vol | |
| 2º | Muros Antigos Alvarinho | 2001 | Média: 2,6 pontos |
| | 100% Alvarinho | 12% vol | |
| 3º | Solar de Serrade Alvarinho | 2001 | Média: 2,4 pontos |
| | 100% Alvarinho | 12% vol | |
| 3º | Aveleda Trajadura | 2001 | Média: 1,6 pontos |
| | 100% Trajadura | 10,5% vol | |
O acompanhamento gastronómico feito à base de peixes gordos grelhados favorecia à partida os vinhos que se apresentassem com uma acidez mais elevada, mas foi pedido que as opiniões se centrassem mais sobre qual o melhor vinho, ao invés de qual o que ligava melhor com a refeição.
Este tipo de avaliação premiou o Quinta do Ameal Loureiro 2001, por ser um vinho que se mostrou muito equilibrado em todas as vertentes, e penalizou o Avelada Trajadura 2001 que apresenta uma acidez algo elevada e o gás mais forte, criando mesmo a impressão de se aproximar de um espumante.
Lançando as minhas notas de prova sobre os vinhos, classifico em primeiro lugar o Solar de Serrade Alvarinho 2001. Boa presença aromática, com notas de fruto tropical e pêssego, marcou-me na prova de boca pela sua finura e equilíbrio, muito frutado tendo uma boa acidez, sem exageros em nuaces alimonadas.
Em seguida coloco o Quinta do Ameal Loureiro 2001. Aroma com boa fruta, notas delicadas de passa e muito floral, sendo perceptível o Loureiro, apresenta-se no paladar muito fresco e ligeiramente mais ácido que o primeiro, com notas de lima e maçã verde, prolongando-se na boca a sensação de frescura.
Em terceiro ponho o Muros Antigos Alvarinho 2001. Os dados deste vinho indicam que após a sua fermentação em inox, aí estagiou por 4 meses, tendo sido sujeito a battonage (agitação das borras). Achei que era um vinho delicado, mas com pouco perfil de vinho verde, sendo frutado no aroma, discreto na prova onde se sentia algum doce e boa fruta, mas faltando alguma frescura e acidez para elevar o conjunto a outro nível.
Por fim, o Aveleda Trajadura 2001. Este peca pela excessiva acidez e pela quantidade mais elevada da componente gasosa. No entanto apresenta-se no copo com os tons mais esverdeados do conjunto em prova, tem um aroma citríco e na boca a presença de toranja com algumas notas de pêssego pouco maduro. Interessante provar em prova cega este vinho que já conhecia e constactar que comparativamente apresenta realmente algum exagero a acidez.
Foi uma experiência muito prazenteira e enriquecedora, excelente para refrescar uma tarde mais quente. Quem tiver curiosidade de provar vinhos verdes em prova cega, não deixe de o fazer!
Copyright © 2003 Os 5 às 8 |