Todos os vinhos provados Vinhos provados
 Todas as provas cegas Provas cegas
 Todos os Artigos Artigos
 Forum discussão Forum discussão
 Informações sobre o mundo do vinho Conhecer o vinho
 Todas as regiões de produção do vinho Regiões
 Todos os produtores Produtores
 Formulário para enviar Notas de Prova Enviar Notas
 Livros relacionados com vinho Livros
 Lojas de vinho Lojas
 Restaurantes Restaurantes
 Informação sobre o grupo de prova Quem somos
 Os nossos contactos Contactos
 Web sites interessantes ou úteis Links
        
 
Prova n.º 32 de Os 5 às 8 (Lisboa) 05 de Julho de 2003
Quinta do Vale D. Maria199817
 28 castas misturadasDouro
Quinta do Vale D. Maria200116,7
 13,5 % volDouro 
Quinta do Vale D. Maria199715,7
 14 % volDouro 
Quinta do Vale D. Maria199915
 28 castas misturadasDouro 
Quinta do Vale D. Maria200014,5
 28 castas misturadasDouro 

Crónica
 
...1997, 1998, 1999, 2000 e 2001!

Estão redondamente enganados se julgam que a tarefa consiste em contar carneiros para adormecer. Trata-se apenas -apenas é favor- da confirmação dos anos de colheita de uma série de garrafas que se alinham na "grelha de partida" para uma vertical... Quinta do Vale D. Maria. Conseguem vislumbrar um motivo maior para fazer crescer "vinho na boca"? Então imaginem...

...em MAGNUM! Para nosso espanto a prova iria envolver garrafas desse formato -excepção feita para o 1997 que não foi editado-. Um privilégio raro não só pelo reduzido número de exemplares produzidos, mas também por se tratar de um formato consensualmente aceite como o que mais favorece a evolução e o potencial de envelhecimento dos vinhos. As delícias de qualquer enófilo...
Aliás, verdade seja dita, a estatura de Cristiano van Zeller -um metro e noventa e...?!- reduz a meras "miniaturas" qualquer garrafa de capacidade normal e, a sua envergadura física só parece ser compatível com formatos maiores. Enfim, tudo em grande...

Para os menos familiarizados com o nome, Cristiano van Zeller foi até aos primeiros anos da década de 90 o responsável pelos destinos da Quinta do Noval. A paixão pelo vinho levou-o a manter-se ligado ao sector, mesmo depois da venda desta quinta ao Grupo AXA. De então para cá tem contribuído para a consolidação comercial de vários empreendimentos no Douro -Quinta do Crasto, Quinta da Portela, Quinta do Vallado, Quinta do Vale Meão...-, bem como na Estremadura, com a Quinta da Chocapalha.
Mais recentemente, as ligações familiares levaram-no a estabelecer uma parceria estratégica com a J.M.F. Succs. visando a produção de vinhos na região duriense. Os tintos Domini e Domini Plus, bem como um vintage da colheita de 2000, são a face mais visível desta tenra aliança.

Contudo, desde 1996 que o seu grande "cavalo de batalha" é o projecto "Quinta do Vale D. Maria". Uma propriedade situada no vale do Rio Torto, na sub-região do Baixo Corgo, e há várias gerações na posse da família de sua mulher, Joana Lemos.
São 19 hectares de terras, 10 dos quais ocupados com vinhas, predominantemente velhas -nalguns casos com cerca de 50 anos- um "lote" vinhateiro com 28 castas misturadas e que nas duas décadas anteriores havia assegurado o fornecimento de uvas ao grupo Symington.

Em 1996 Cristiano van Zeller corta com a tradição da casa e lança as raízes do projecto "Quinta do Vale D. Maria. Esta história começa aí e acaba em 2001... para um balanço dos resultados enológicos das cinco colheitas iniciais. Já lá vamos...

A simpatia, a boa disposição e o tom informal da conversa revelam que Cristiano van Zeller é daquelas pessoas que "vive" o vinho. Tem ideias claras e bem definidas quanto às estratégias de afirmação internacional da região duriense, assim como para a consolidação do seu projecto pessoal. Confessa uma especial predilecção pelos vinhos de lote e não alinha na filosofia dos tintos violentos e muito poderosos, privilegiando vinhos que denotem elegância e harmonia global. Mostra-se acérrimo defensor das fermentações malolácticas em barrica e demarca-se claramente de orientações enológicas que apostem única e exclusivamente no quinteto de castas ditas de eleição para a região.
Manifesta algumas reservas quanto ao potencial da Tinta Roriz no vale do Douro, mas, em contrapartida, não disfarça um carinho especial por castas em desuso -para não dizer em vias de extinção- como a Tinta Francisca e o Sousão. Aliás, pondera seriamente a hipótese de vir a recorrer à casta Syrah e a uma outra casta que não quis revelar. Um segredo bem guardado... é a alma do negócio.

O seu projecto só agora começa a ganhar forma definitiva dando os primeiros sinais de poder entrar em velocidade de cruzeiro. Desde a colheita inaugural, em 1997, que as carências sentidas ao nível de instalações e de equipamentos enológicos obrigaram os mostos a "passear" por outras quintas. Esses percalços terão contribuído para que pelos seus vinhos já tenham passado enólogos como David Baverstock e Dominic Morris. Uma situação que parece definitivamente ultrapassada: a colheita de 2001 já foi produzida integralmente em instalações próprias e, neste momento, Sandra Tavares da Silva assume-se como enóloga residente.

Com óbvias oscilações de colheita para colheita, a impressão geral dá conta de uma preocupação clara com a harmonia e o equilíbrio dos vinhos em detrimento da potência e da concentração. E, a melhor prova disso é que sendo vinhos com elevada graduação, denotam uma boa integração alcoólica. Percebe-se que não se anda ali à procura de "monstros", vinhos retintos, macerações extremas e de álcool "à flor da pele".

Globalmente, os vinhos mostram-se límpidos e muito vivos na sua coloração granada. Aromaticamente, não escondem um contraste flagrante com a nova "constelação" de tintos da região, mostrando-se suficientemente harmoniosos para serem consumidos mal são colocados no mercado. Menos fechados que muitas "estrelas" do firmamento duriense, sem a severidade de alguns aromas químicos, denotando sempre a presença de frutos vermelhos, um cunho especiado e uma muito envolvente componente balsâmica que lhes confere originalidade e os torna particularmente sedutores ao nariz.

Na boca os vinhos mostram-se medianamente encorpados, primando pela elegância e deixando sempre perceber uma evidente componente frutada. Não sendo portentos de estrutura, rejeitam qualquer "lapso" ou "hiato" na evolução e manifestam apreciável persistência final.

É o próprio produtor que o confessa: a receita ainda não está definida, faltando polir determinados aspectos e limar algumas arestas para se chegar a um Quinta do Vale D. Maria... de excepção. A forma como estas cinco colheitas expressam diferenças no contributo das madeiras de estágio é indiciador de que ainda se procura a combinação ideal. Só agora, ao fim destes anos, se começa a ter uma noção mais clara das cambiantes que o "jogo de madeiras" imprime ao produto final. E a experimentação envolvendo pipas de diferentes capacidades, de diferentes produtores, as nuances de tosta, bem como a combinação e proporção entre madeiras novas e de 1º ano só agora começa a dar os seus frutos. Devagar se vai ao longe!

Depois de um "rastreio" mais atento, é fácil perceber que a colheita de 1997 -talvez por ser a primeira-, contrasta com as restantes: um perfil que aponta para um estilo mais terroso, mais vegetal e menos balsâmico. Um bom vinho... na plenitude das suas faculdades.

O ano de 1998 traz-nos um vinho mais ambicioso: um conjunto muito fino no detalhe, elegante, delicado e muito envolvente nos aromas. Bom corpo, muito boa maturação do fruto e muita harmonia, deixando a sensação de ser aquele que melhor "se afeiçoou" à madeira. Deveras sedutor e, para muitos... a estrela da noite!

A colheita de 1999 revela-nos um "D. Maria" diferente: o vinho parece mais evoluído e, simultaneamente, mais austero, menos encorpado, não conseguindo disfarçar uma ligeira presença alcoólica. Gosto nosso, ou azar da garrafa, mas, em qualquer dos casos, menos empolgante que o irmão de '98.

Face à excelência do ano, o 2000 acabou, infelizmente, por defraudar as expectativas: o protagonismo da barrica acaba por desvirtuar o produto final e, em termos aromáticos, o conjunto acusa "o toque". Ou pela combinação de madeiras usada, ou em virtude do tempo de permanência em barrica, ou por ambas, a verdade é que o vinho está impregnado de notas queimadas que acabam por ofuscar e retirar brilho à componente frutada. Uma pena porque se percebe que estava lá a qualidade da matéria-prima. E o vinho podia ter chegado mais longe...

Finalmente, o "rebento" de 2001: muito promissor, ainda respira juventude mas já denota um excelente entrosamento nas suas diversas componentes. Na linha do 2000 mas sem o handicap deste: exuberante nos aromas, estruturado na boca, cheio, macio, com muito bom ataque e uma bela estrutura de taninos. Um vinho "a sério" que poderá começar a ser consumido logo que seja colocado no mercado. Um tinto capaz de rivalizar com a colheita de 1998. Não sendo "Reserva", um vinho a adquirir... sem reservas!

Como não podia deixar de ser para quem esteve ligado à Quinta do Noval, o "bichinho" do vinho do Porto não foi esquecido e os anos de 1999 e 2000 deram a conhecer os vintage Quinta do Vale D. Maria. Qualquer deles mostra que ainda não nasceu um vintage "para arrasar", mas o salto qualitativo entre as duas colheitas mostra que existe potencial. Se a primeiro acusa falta de estrutura que justifique a opção pelo estilo vintage, já a segundo revela que há condições para a elaboração de vinhos de muito bom recorte. Sem pressas ou precipitações...

Por opção estratégica Cristiano van Zeller privilegia a colocação dos seus vinhos no mercado externo e as quantidades disponíveis para consumo interno obrigam a uma procura mais exaustiva e uma especial atenção em relação aos timings de colocação dos vinhos no mercado: um incómodo para o consumidor, se bem que, enologicamente, compense o esforço. Fica a garantia de aceder a bons tintos durienses, sem que para isso seja necessário "escavacar" a carteira. O que, convenhamos, começa a rarear...no Douro!

Diz a experiência que a pressa não é boa conselheira. Nós sabêmo-lo, Cristiano van Zeller sabe-o e os seus vinhos comprovam-no. Não sendo os melhores néctares do mundo, têm conseguido, paulatinamente, a tão desejada afirmação nacional e internacional. E, por isso mesmo, não nos admiraríamos se daqui por meia dúzia de anos os rótulos "D. Maria" se viessem a tornar referências incontornáveis dos vinhos "Portugal". Oxalá...

Uma palavra de apreço para Cristiano van Zeller pelo empenho e disponibilidade em proporcionar um evento irrepetível como é uma vertical magna... em MAGNUM, mas também pelo sacrifício que implica uma viagem Lisboa/Porto, de ida e volta, em escassa meia dúzia de horas. Para nós ficou a grata experiência do contacto directo com o produtor, a possibilidade de avaliação dos resultados enológicos do trabalho que tem vindo a desenvolver e a visão de um Portugal vitivinícola que raramente chega ao consumidor. Existirá melhor forma de diagnosticar a realidade do sector? Impagável...

Por último, os nossos sinceros agradecimentos a José Tomaz Mello Breyner, a José Telles e à York House. Não fossem o seu empenho e a sua total disponibilidade e nada disto teria sido possível. Revelaram enorme profissionalismo e desempenharam exemplarmente o papel de anfitriões. A eles se deve toda a estrutura logística montada em redor deste evento: salas, copos, decantadores, cuspideiras, bolachas de água e sal e toda a panóplia de requisitos indispensáveis para uma prova vertical... de cair para o lado!
Uma refeição esmerada, uma gastronomia de elevado padrão qualitativo e concepções culinárias com elevado sentido estético.
Uma viagem por um ambiente calmo e relaxante, reservado e elegante, imagem de marca dos genuínos hotéis "de charme". E, depois, sempre aquela agradável sensação de que Lisboa já ficou muito para trás. Cinco estrelas! *

* Não tem cabeleireiro, mas ninguém deu pela falta dele -uma private joke-. As outras não se podem contar...

Copyright © 2003 Os 5 às 8