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| Prova n.º 33 de Os 5 às 8 (Lisboa) 14 de Agosto de 2003 |
| 1º | Quinta do Mouro | 2000 | 16,7 |
| | 55% Aragonês, 40% Alicante Bouschet e 5% Cabernet Sauvignon | Miguel de Orduna Viegas Louro | |
| | 14 % vol | Alentejo | |
| 2º | Kirbauer Blaufränkisch Goldberg Tronçais barrique | 2001 | 16,3 |
| | 100% Blaufränkisch | Kirnbauer | |
| | 13,5 % vol | Burgenland(Áustria) | |
| 3º | Château d'Agassac | 2000 | 13,8 |
| | 50% Merlot, 43% Cabernet Sauvignon e 3% Cabernet Franc | Château d'Agassac | |
| | 13 % vol | Haut-Médoc (França) | |
| 4º | Château Les Trois Croix | 2000 | 12,9 |
| | 90% Merlot e 10% Cabernet Franc | Famille Patrick Léon | |
| | 13 % vol | Fronsac (França) | |
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| Crónica |
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A estrela Sírio, a constelação do Cão, o Sol e... a inevitável canícula. Uma combinação demolidora, a que os enófilos se mostram alérgicos, particularmente quando está em causa a degustação de vinhos tintos. Não há volta a dar-lhe e o Verão de 2003 revelou-se arrasador. A prova já estava agendada e antevia-se o pior.
Felizmente, a atmosfera deu tréguas e, o anticiclone dos Açores pôde, finalmente, esbater os efeitos da depressão de origem térmica que afectou o território nacional e foi responsável pela vaga de calor que assolou o nosso país no começo do mês de Agosto. Afinal, nem tudo estava perdido e, para nosso gáudio, uma prova de tintos em pleno período estival não precisava de ser penosa. Do mal... o menos!
Em cima da mesa estavam dois tintos bordaleses da badalada e hiper-inflaccionada colheita de 2000, um tinto alentejano, também ele de 2000 e um tinto austríaco, de 2001, produzido por Kirnbauer. Este último, um monovarietal Blaufrankisch -as coisas que se aprendem?!-, estagiado em carvalho de Tronçais e que, para efeitos práticos, surgia como um verdadeiro "outsider".
Para além da curiosidade em avaliar o comportamento de um vinho pouco comum como é o caso de um tinto austríaco, havia muitas expectativas para ver até que ponto se justificava a total euforia com a colheita de 2000, em Bordéus. Não se tratavam de vinhos de primeira linha mas, em qualquer dos casos, os 90 pontos atribuídos por James Suckling haviam criado fundadas expectativas.
O confronto entre diferentes estilos não impediu que o vinho português "brilhasse" e se destacasse dos demais. Falamos do Quinta do Mouro, da colheita de 2000, produzido por Miguel de Orduna Viegas Louro. Perfeitamente identificável quanto às suas origens, franco de aromas, com as sugestivas notas a compota de tomate e erva-doce a misturarem-se com apontamentos de vegetal fresco. Um conjunto muito apelativo com a madeira a surgir bem entrosadas com os restantes aromas. Encorpado, denotando boa extracção e carregando uma frescura que nem sempre está presente nos vinhos alentejanos. Final longo deixando perceber a excelente estrutura de taninos. Um muito bom tinto, ao melhor estilo... "sulista"!
Em segundo lugar ficaria o vinho austríaco: média concentração para um espectro aromático alargado com a componente vegetal bem entrosada com as notas de morangos e framboesas, tendo como pano de fundo ervas de cheiro, apontamentos silvestres e vestígios florais. Não tão entusiasmante na boca: boa extracção, textura acetinada e muito boa acidez, mas, em contraponto, e sem que isso afecte o equilíbrio de conjunto, nota-se que se poderia ter ido mais longe em termos de musculatura, extracção e sabores. Final um tanto ou quanto desconcertante na medida em que o vinho parece sumir-se e, repentinamente, desperta para um longo e crescente final. Globalmente, fica a impressão de um produto de elaboração cuidada, diferente -afasta-se do perfil dos tintos nacionais- e, como alguém dizia... um vinho divertidíssimo! A prova cabal de que a Áustria não está refém dos vinhos brancos e da omnipresente Gruner Veltliner. Ora, nem mais!
Na escala de pontuações seguir-se-ia o Château d'Agassac, um cru bourgeois do Haut-Médoc. Foi o vinho que gerou maior polémica mas portou-se a bom nível -embora estivesse longe de arrasar. Notas tostadas a sobressaírem de um conjunto onde a componente mineral se mistura com apontamentos de café e nuances achocolatadas. Ataque macio, firme na evolução, com o vigor e polimento dos taninos a suportarem um bom comprimento final. Não é barato mas pode funcionar como uma opção acertada para uma primeira incursão no universo bordalês.
No fim da tabela ficaria o Château Les Trois Croix 2000, oriundo de Fronsac. Está com uma cor granada muito viva, sente-se o cariz mineral e a sensação a apara de lápis e percebe-se-lhe a presença do fruto preto. Em todo o caso, a madeira assume ainda um protagonismo excessivo e, sobretudo a acidez parece ser desproporcionada. É provável que venha a beneficiar com a permanência em garrafa, mas acabou por ser o vinho menos entusiasmante. De momento, faltam-lhe equilíbrio, harmonia e argumentos que justifiquem a sua escolha... e o preço que por ele se reclama!
Para memória futura ficam-nos um belíssimo Quinta do Mouro e um tinto austríaco que, para além da agradável surpresa, constitui uma "lufada de ar fresco" para quem vive circunscrito aos contornos da vinicultura nacional.
Finalmente, e não menos importante, a certeza de que nem tudo o que se chama Bordéus... é Bordéus! Em colheitas emblemáticas, como parece ser o caso de 2000, os preços disparam para valores especulativos e a experiência mostra que nem todos têm qualidade para ir a reboque da região. Embora o seu preço vá!
Copyright © 2003 Os 5 às 8 |
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