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Prova n.º 39 de Os 5 às 8 (Lisboa) 17 de Novembro de 2003
Palacio de Bornos Verdejo Fermentado em Barrica200215,2
 100% VerdelhoPalacio de Bornos
 13 % volRueda (Espanha) 
Eric Texier Condrieu200115,2
 100% ViognierEric Texier 
 13 % volCondrieu (França) 
Domingos Soares Franco Colecção Privada Viognier200214,5
 100% ViognierJosé Maria da Fonseca 
 12,5 % volSetúbal 
Aigle Les Murailles200114,4
 100% ChasselasHenri Badoux 
 14,5 % volVaud (Suíça) 
Johanneshof Reinisch Dialog Cuvée200214
 Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot BlancJohanneshof Reinisch 
 13 % volThermenregion (Áustria) 

Crónica
 
Mais uma noite, mais uma prova, mas desta vez com uma particularidade, uma prova de brancos. De brancos? Só de vinhos brancos, sem sequer um tintinho para animar? É isso mesmo, uma prova só de brancos... e com muito orgulho! Não foi a primeira vez, não será a última, mas a verdade é que se sucedem provas de tintos, de mais tintos e ainda mais tintos e de brancos acabamos por falar pouco nas nossas crónicas. Damos a mão á palmatória, damos o braço a torcer e prometemos tentar remediar esta má prática... A ver vamos se conseguimos manter esta jura!

A prova foi organizada por um dos membros, que pôs e dispôs de vários critérios. As hesitações foram muitas, as vacilações variadas, os critérios mudando ao sabor do momento, mas sempre com um objectivo em mente, provar o Domingos Soares Franco Colecção Privada Viognier 2002. Quem organizou a prova é apaixonado pela casta Viognier, e a curiosidade de provar o primeiro engarrafamento estreme desta casta (em Portugal) era muita. Várias alternativas foram postas em cima da mesa - uma prova de Viogniers de diferentes origens, uma prova entre brancos portugueses de diversas regiões, uma prova de brancos sem critérios particulares de castas ou nacionalismos... Acabou por vingar uma tese mista. Existia o desejo de ver como o Viognier português se batia face a um concorrente estrangeiro, e havia vontade de provar mais alguns vinhos diferentes, originais e que podessem alargar horizontes.

E assim foi, optou-se por um embate entre a experiência portuguesa com a casta francesa e a sua versão original, um Viognier de Condrieu, a sua "terra de origem", o berço da casta e do estilo. Em simultâneo colocaram-se em confronto vinhos diferentes, vinhos singulares, que por variadas razões estão fora do círculo habitual de provas. Uma prova de vinhos quase excêntricos, pelo menos para os hábitos deste painel. Assim estiveram em confronto directo vinhos de origens tão diversas como Portugal, Espanha, França, Suíça e Áustria.

Qual foi o vinho mais valorizado pelo painel? Bom, tecnicamente assistimos a um empate, com os dois primeiros vinhos a apresentar classificação idêntica até ás centésimas. O desempate foi decidido pela nota da prova de boca, que por escassa margem foi favorável ao Palacio de Bornos Verdejo Fermentado em Barrica 2002. Este vinho da casta Verdejo - Verdelho em português - é um vinho da zona de Rueda, situada em Castela e Leão, perto de Ribera del Duero, e logicamente, na área de influência do rio Douro. Curiosamente a denominação de origem Rueda apenas admite castas brancas, apresentando como castas mais representativas o Verdelho e o Sauvignon Blanc. Nesta altura impõe-se um pequeno aparte para colocar uma questão - porque é que em Portugal se dá tão pouco relevo a esta casta? Os espanhóis têm obtido excelentes resultados (precisamente nesta zona de Rueda), os australianos começam a assumir a casta como deles, e em Portugal, com excepção da Quinta dos Roques, mais ninguém lhe pega. Porquê?

Voltemos a este Verdelho fermentado em barrica. Mostrou ser um vinho muito consensual, um vinho agradável, com boa intensidade de aromas, sem estar demasiado marcado pela madeira, um vinho frutado e sobretudo muito equilibrado. Uma boa aposta, embora a madeira lhe retire alguma exuberância aromática. Com a mesma pontuação ficou o representante gaulês, um vinho de Eric Texier, um dos novos "gurus" do Ródano. Este Condrieu (Viognier) serviu de padrão, de testemunho ao Viognier português, até porque tal como o Colecção Privada foi fermentado em madeira. Ouve quem gostasse mais e quem gostasse menos, mas todos lhe louvaram a linda cor dourada e a exuberância de aromas finos e subtis. Uma espécie de tratado da casta, com o pêssego, damasco e pétalas de rosa a sobressair e a dominar o aroma. Um vinho interessante e que estará porventura no seu melhor momento de consumo.

No bronze quedou-se o embaixador português, o Domingos Soares Franco Colecção Privada Viognier 2002. É mais uma boa aposta da José Maria da Fonseca, uma aposta numa casta desconhecida para muitos portugueses, mas que pode dar excelentes resultados. Estes Colecção Privada têm vindo a revelar muitas castas "exóticas" ao consumidor português, cumprindo um papel educativo e formativo do paladar. Um exemplo a tomar em conta e uma prática de louvar. Mais consenso seria impossível, com todos os provadores a valorizá-lo exactamente da mesma forma. É um vinho muito certinho, muito redondo, mas um branco a que falta mais ambição e clareza.

Os brancos dos dois países alpinos vizinhos desta vez não ficaram tão bem vistos. O Aigle Les Murailles 2001, um vinho elaborado com a casta Chasselas mostrou ser demasiado anónimo para poder aspirar a mais. A título de curiosidade diga-se que a casta Chasselas faz companhia à casta Moscatel na particularidade de funcionar, tanto como uva de mesa, como de "uva de vinho". O Johanneshof Reinisch Dialog Cuvée é um vinho muito equilibrado, sem pontos fracos nem pontos fortes. Um vinho consensual, muito certinho, sem nada fora do sitio, tanto para o bem como para o mal.

Em suma, uma prova engraçada, uma prova educativa e igualmente uma prova que deixa no ar uma questão - será que a fermentação em madeira apresenta reais vantagens em castas de aromas finos? É uma moda a que temos de nos submeter ou os ganhos enológicos e sobretudo organolépticos são substanciais?

Copyright © 2003 Os 5 às 8