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A crónica de prova seguinte foi contribuição de um leitor
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Prova Cega de Vinhos Tintos Espanhóis
(8 de Novembro de 2003)

Crónica
 

A prova a que chamamos cega desta vez era elevada a um expoente maior e poder-se-ia chamar de cega, surda e muda. O porquê? É que o anfitrião já a tinha preparada há alguns meses, e a única coisa que (pensávamos...) tinha sido revelada, era que a compra tinha sido feita no Algarve durante as férias de Verão. Todos congeminaram as suas teorias da conspiração, uns que seriam vinhos algarvios, outros que seriam vinhos alentejanos, outros que seriam vinhos novos... todas elas erradas, e o que tinha sido arranjado era uma prova de néctares tintos de nuestros hermanos, adquiridas em Ayamonte. Mas a revelação não foi assim tão fácil. Tudo começou no maior secretismo e só ficaríamos a saber a origem dos vinhos já pela refeição dentro. O processo usado foi o habitual e as garrafas estavam camufladas e numeradas, bem como os copos. O anfitrião era o único a saber quais eram os vinhos mas não sabia a ordem em que eram servidos. A temperatura de prova foi de 15-16º, e foi unânime a opinião de que era uma temperatura que favorecia os vinhos.



Torres Gran Coronas Reserva199617
 Torres - PenedèsCabernet Sauvignon(85%), Tempranillo(15%) 
 13 % volEspanha 
Marqués de Valparaiso199816,6
 Federico Paternina,SA - Ribera del DueroTinto Fino (ou Tempranillo) 
 12,5 % volEspanha 
Marqués de Riscal Reserva199514,1
 Marqués de Riscal - Rioja  
 13 % volEspanha 




Primeiro impacto: a cor. A primeira observação mostrava que as cores denunciavam que os vinhos não seriam vinhos jovens. No primeiro copo estava aquele com a cor mais límpida e mais perto do rubi, enquanto que nos 2º e 3º copos as cores eram mais acastanhadas e mais opacas, dando a sensação de serem vinhos já com idades para cima dos 5 anos. E não errámos. O primeiro copo seria o que tinha o Marqués de Valparaiso 1998, no segundo copo estava o Torres Gran Coronas Reserva 1996 e no terceiro o Marqués de Riscal Reserva 1995.

Segundo impacto: os aromas. Notou-se logo que estávamos na presença de vinhos aromaticamente muito intensos.

Dando uns longos e prazenteiros minutos de observação e prova, as primeiras opiniões começaram a ser discutidas. No nosso caso, gostamos de discutir o que se vai sentindo e trocamos opiniões ao longo da prova, ao invés de discutir no final. Os provadores envolvidos não são profissionais e pensamos que ganhamos mais com este método, que é do agrado de todos.

No primeiro copo eram marcantes as notas de compota de frutos vermelhos, de doce de morango, de cheesecake, um conjunto muitíssimo agradável, a transmitir uma doçura ao olfacto que ainda não nos tinha sido transmitida por nenhum outro vinho antes provado, mas que tinha algumas semelhanças com alguns Aragonês alentejanos.

No segundo copo, as belíssimas notas de azeitonas ou azeite, pimentos e borracha. Estes aromas de grande intensidade e prazer denunciaram um pouco a existência de Cabernet Sauvignon neste vinho, e isto viria a confirmar-se.

No terceiro copo estava o vinho mais difícil para o nariz. Mesmo com arejamento no copo é um vinho que dá a sensação de madeira e algum mofo, sendo o menos agradável dos três.

Por tudo isto nos parecer um pouco diferente daquilo que estávamos habituados, começaram a surgir as primeiras suspeitas de que os vinhos não seriam nacionais.

Terceiro impacto: a prova de boca. Mais uma vez os copos 1 e 2 continham muito boas surpresas. O primeiro é dotado de uma doçura que acompanha as noções recolhidas no nariz, acidez equilibrada, suave, taninos domados e corpo médio, terminando médio com notas doces também.

O segundo é mais encorpado, aveludado e macio. Tem nuances apimentadas e especiadas, e um final longo, que se acomoda no palato por algum tempo.

O terceiro copo reserva mais uma vez um vinho com menos riqueza. É aquele que tem mais acidez e adstringência, mais álcool a aparecer e alguma madeira, não mostrando muito mais e terminando curto.

A escolha do melhor vinho presente foi unânime. O Torres Gran Coronas foi aquele que mostrou o melhor conjunto. Seguido de perto pelo Marqués de Valparaiso. Em estilo diferente, mas muito bom também. Pensamos que nestes dois casos estamos perante grandes vinhos e que estão muito perto do seu melhor momento na evolução em garrafa. O vinho que menos agradou foi o Marqués de Riscal Reserva, o que surgiu como alguma desilusão, pois a região de Rioja é bastante famosa. Neste caso, sendo um vinho de 1995, deu a impressão de já ter passado pelo seu ponto alto. A título de apontamento, o Torres Gran Coronas tem um particular método de estágio, passando por 6 meses de carvalho novo americano e francês e sendo depois passado para barricas de 2º e 3º ano, onde estagia durante mais 18 meses.

Estiveram então à mesa e em confronto 3 famosas regiões do nosso país vizinho.

Rioja (http://www.riojawine.com), aquela que porventura traria mais fama, acabou por sair derrotada, mas pensamos que experimentando mais exemplares certamente que a opinião sobre a zona será melhor. Esta zona, primeira e única D. O. "Calificada", está situada no Valle del Ebro, limitada a Norte pela Sierra de Cantabria e a Sul pela Sierra de la Demanda, e está dividida em La Rioja Alta (a maior de todas), La Rioja Alavesa, e La Rioja Baja, cada uma com as suas particularidades climáticas e de terroir, dando origem também a diferentes vinhos. A casta predominante tinta é a Tempranillo (para nós Aragonês ou Tinta Roriz). Penedès (http://www.interceller.com/do-penedes) foi a Região vitoriosa neste confronto. Situada na Catalunha, beneficia da proximidade do mar e do elevado número de horas de Sol anuais. Está dividida em Penedès Superior (vinhas a altitudes até 800m), Penedès Central (vinhas a altitudes de 100 a 400m, e temperaturas mais elevadas) e Bajo Penedès (vinhas a altitudes inferiores a 100m e com clima mediterrânico).

Ribera del Duero (http://www.riberadelduero.com) no segundo lugar do podium, mas muito perto do primeiro, é uma zona contígua ao nosso Douro, e que é muito conhecida pelos famosos vinhos Vega Sicilia que aí são originados. Ao longo de mais de 100 Km das margens do Alto Duero, esta zona está inserida entre Valladolid, Segovia, Soria e Burgos, e pode ser contemplada com climas muito diferentes ao longo do seu percurso. Conhece Verões muito quentes e Invernos rigorosos e frios. A casta essencial nesta zona é a Tinto Fino ou Tinta del País (nome que esta zona dá ao Tempranillo, ou o nosso Aragonês ou Tinta Roriz). Esta casta dá aos vinhos perfis muito frutados, de cores rubis límpidas.

Uma grande lição prática sobre o que se produz aqui ao lado, e a preços nada exagerados.

Provas feitas, estava na altura da parte gastronómica do almoço. Nesta prova cega tínhamos tido a participação activa na prova da Liliana, que nos presenteou com a sua confecção primorosa de cachupa. A sua receita segredo de família estava divinal e todos os esforços, pressões e subornos utilizados foram em vão, e a tentativa de obter o segredo e a receita saiu gorada...

A refeição terminou com gelado de nata com molho de manga e o café foi acompanhado de Brigadeiro de Chocolate. O digestivo foi a última surpresa: Magno Solera Reserva, um brandy de Jerez das Bodegas Osborne. Um destilado do famoso generoso espanhol Jerez, com 36% e envelhecido em "botas de roble americano" seguindo o método Jerezano, muito agradável e suave.

Tudo isto nos encheu os sentidos, mas o dia ainda estava a começar... é que no final da refeição, tínhamos partida marcada para o Encontro dos Vinhos e Sabores no Centro de Congressos de Lisboa, onde outras surpresas nos aguardavam... mas isso é uma outra longa história, e terá de ser descrita noutra crónica.


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