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| Prova n.º 38 de Os 5 às 8 (Lisboa) 12 de Novembro de 2003 |
| 1º | Leo d'Honor Garrafeira | 1999 | 16,9 |
| | 100% Castelão Fr | Ermelinda Freitas | |
| | 14,5 % vol | Setúbal | |
| 2º | Quinta da Dôna | 2001 | 16 |
| | 100% Baga | Ataíde da Costa Martins Semedo | |
| | 13,5 % vol | Bairrada | |
| 3º | Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional | 2000 | 14,3 |
| | 100% Touriga Nacional | Sogrape vinhos de Portugal, SA | |
| | 12,5 % vol | Dão | |
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| Crónica |
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Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional 2000, Quinta da Dôna 2001 e Leo d'Honor Garrafeira 1999. Uma vez mais, e por mero acaso, a prova viria a contar com um vinho repetido -o tinto bairradino-, com a consequente mais-valia didáctica e pedagógica que tal desafio representa para os provadores.
Quem olhasse para os vinhos em prova poderia deduzir que se havia optado por um embate monovarietal, colocando frente-a-frente as castas Touriga Nacional, Baga e Castelão. Mas não. Poderia ainda vislumbrar-se um hipotético duelo regional envolvendo o Dão, a Bairrada e a Península de Setúbal. Mas, também não. Ou melhor, poderia ter sido tudo isso mas quando nos decidimos por um critério pensámos única e exclusivamente em vinhos que têm recolhido o aplauso da crítica. As elevadas pontuações obtidas e as classificações destacadas em várias provas reforçavam a ideia de que, já nesta colheita ou em edições futuras, poderíamos estar perante dignos representantes da elite dos vinhos tintos nacionais. Desde o primeiro momento foi esse o critério adoptado.
As honras da noite viriam a recair no tinto de Fernão Pó. Um Castelão -100%-, elaborado por Ermelinda Freitas a partir de encepamentos centenários. Deparámo-nos com algumas diferenças em relação a garrafas anteriormente provadas, mas, em todo o caso, estamos perante um vinho concentrado, com grande vigor aromático, original nas nuances, com os apontamentos de graxa e cera envoltos por notas de fumo e café -sobretudo quando volteado-. Com o arejamento surgem os apontamentos silvestres, as resinas e as nuances mentoladas, com a fruta a querer vingar sobre o conjunto e com a tosta da barrica a "queimar" ligeiramente as sensações gustativas. Um tinto encorpado, poderoso, cheio de garra, sem ser violento. Um perfil do tipo colosso mas sem brutalidades. É, seguramente, um dos actuais expoentes máximos desta casta e da região e, se futuras colheitas assim o permitirem, um sério candidato ao patamar mais alto da vinicultura nacional.
Na posição imediata ficou o tinto bairradino, com duas garrafas que não colocaram problemas de maior na sua imediata identificação. Um tinto da nova escola bairradina, produzido por Ataíde Semedo na região de Ancas. Cepas sexagenárias, uvas desengaçadas, fermentação em inox e a "aversão" a longos estágios em madeira velha. Muito sinceramente ficámos "angustiados" com o vinho: a boca remete-nos para um nível de qualidade pouco visto no nosso país mas, infelizmente, os aromas não disfarçam um odor desagradável -difícil de definir- que o prejudicam no primeiro nariz. Aquilo que poderia ter sido o azar de uma garrafa acabou por manifestar-se em dose dupla e parece não haver volta a dar-lhe. Excelente cor e um halo violáceo muito intenso, acompanhado por uma lágrima persistente, também ela com grande riqueza cromática. Álcool completamente integrado na restante estrutura e boas notas tostadas que com o tempo deixam perceber o fumo, ligeira pólvora, tinta e subtil silvestre, com o o fruto a querer despontar em pano de fundo. Encorpado e imensamente fresco, com o ataque a combinar robustez e elegância, acidez perfeita e muitos e finos taninos. Um final longo, distante das securas de outros Baga e, também por isso, menos identificável com a sua região de origem. Uma grande boca para um nariz não completamente limpo. Um tinto que mereceria uma nota mais alta não fosse a intromissão de um odor desagradável, por vezes agressivo, que prejudica a prova, retirando-lhe finura e equilíbrio aromáticos.
O último lugar, e a grande desilusão da prova, coube ao Quinta dos Carvalhais Touriga Nacional 2000. Um tinto da autoria do enólogo Manuel Vieira e que na edição de 2000 mostrou não estar à altura das quatro colheitas anteriores -1994, 1995, 1996 e 1998-. Bastaria a cor, especificamente os tons rosados do bordo, para se perceber que não se atingiu o nível de concentração habitual nesta casta. Um início marcado pela especiaria, algum feno seco, notas de caruma e pinhal e alguns apontamentos a sugerir bagas silvestres. Evolui em direcção à componente frutada -morangos com açúcar, framboesas, rebuçado de fruto- e só após longo arejamento desenvolve alguns notas florais típicas da casta. Perde na boca: mostra-se fresco, mas falta-lhe corpo e, embora se sinta a componente frutada, percebe-se que está diluído. Controverso na evolução, denotando alguma debilidade estrutural no palato médio e um pós-gosto relativamente curto, marcado por ligeira secura, e onde pouco mais se vislumbra a não ser a qualidade dos taninos. Na boca o vinho parece ter ficado a meio caminho... para chegar a ser vinho. Uma colheita distante daquilo a que esta casta e este produtor nos habituaram.
A fechar a prova ainda foi degustado um vinho branco doce austríaco: tratou-se de um Beerenauslese da colheita de 2000 elaborado por Feiler-Artinger com a casta Traminer. Amarelo limonado à vista, não se apresenta completamente limpo mas revela bons apontamentos de fruta de polpa branca e de caroço, bem como notas de acácia e rosa que se libertam do fundo terroso. Gordo e untuoso na boca com a falta de acidez a conferir-lhe um desempenho mole, marcado pelos sabores pesados do pêssego e da alperce. É essa mesma falta de acidez que acaba por reflectir-se numa persistência final modesta. Não decepciona, mas fica aquém das expectativas.
Em jeito final, fica-nos a ideia de uma primeira edição de um belíssimo tinto de Palmela, a deixar no ar uma atenção redobrada quanto a lançamentos futuros. As cepas centenárias e as virtudes da casta poderão muito bem, num futuro próximo, dar a conhecer mais um grande tinto português.
Em relação ao Quinta da Dôna fica uma enorme expectativa para que em edições futuras -será na colheita de 2003?- se consiga outro desempenho aromático. Nessa altura estaremos perante um grande tinto bairradino e, porque não reconhecê-lo, nacional. Num estilo moderno... como se impõe!
Carvalhais acabou por desiludir. É do conhecimento geral que este produtor sempre privilegiou -e bem- a elegância e o equilíbrio dos seus vinhos. Contudo, falta estrutura a este Touriga Nacional de 2000 e a prova de boca revela-nos um tinto que está longe do padrão a que esta casa nos habituou e que se exige a uma casta nobre. Esperamos que se tenha tratado de um acidente de percurso e que, em futuras colheitas, nos possamos reconciliar com este monovarietal.
Em relação ao vinho de sobremesa pouco mais haverá a acrescentar. É um estilo que vale a pena conhecer porque se afasta daquilo a que se habituou o palato português. Ainda assim, este exemplar, se bem que não decepcione, fica distante do brilho que estes vinhos tantas vezes carregam. Melhores dias virão...
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