Tinha passado mais de meio ano até que se conseguiu juntar o painel completo do COV. Algumas provas foram aparecendo mas não tinha sido possível juntar os quatro à volta da mesa, por este ou aquele motivo. O Natal parecia a desculpa ideal para que a 3ª Prova Cega COV se realizasse, e apesar dos vários momentos de hesitação, tudo se encaminhou e à data e hora combinada estávamos todos juntos. O tempo e as experiências entretanto tidas tinham feito crescer a curiosidade e a vontade de provar vinhos estrangeiros. Temos a consciência de que por cá ainda há muito a provar e a aprender, mas apostámos em fazer desta prova uma incursão pelo que de bom se faz lá por fora. A escolha recaiu numa prova de vinhos Australianos. A sua fama é grande, os seus preços são comedidos para a qualidade apregoada, e mesmo os laços de família com origem em Sydney ajudaram na escolha. Cada um traria um vinho nascido nos antípodas da Europa e a prova seria cega como de costume.
Todos eles vieram de vinhas da zona Sul e Sudeste Australiana, zona de maior incidência de vinhedo. Alguns nasceram em Barossa Valley, um vale perto de Adelaide, mais ou menos a meio da costa Sul, outros em Hunter Valley, talvez o mais conhecido, albergando mais de uma centena de viticultores. Este fica no estado de Nova Gales do Sul, zona Sudeste, perto de Sydney, provavelmente a cidade mais conhecida da grande ilha, famosa pelas suas passagens de ano junto à água, pela Harbour Bridge e Opera House, mas não a capital. Essa é Camberra, sita a Sul de Sydney.
As condições de terroir destes vales é ideal para a viticultura, e apesar de não ter criado fama com castas autóctones ou nativas, as suas cepas de castas internacionais produzem vinhos em quantidades muito apreciáveis, mantendo sempre a fasquia da qualidade bem alta. Estando do outro lado do mundo, no hemisfério Sul, as vindimas começam normalmente no final de Janeiro, e as suas festas decorrem entre Fevereiro e Abril, longas e à boa maneira Australiana.
A casta tinta Syrah, de origem francesa, é aqui rebaptizada de Shiraz e é a mais famosa pela excelente adaptação que aqui teve, por entre os incontornáveis Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, ou os menos ouvidos Grenache e Mataro, entre outros. No reino dos brancos, a casta Semillon predomina, mas seguida de perto pela polivalente Chardonnay, e por outras como a Sauvignon Blanc ou Riesling.
| 1º | Wyndham Estate Bin 555 Shiraz | 2000 | 16 |
| | Wyndham Estate - Hunter Valley | 100% Shiraz | |
| | 13,5 % vol | Austrália | |
| 2º | Rosemount Shiraz, Mataro, Grenache | 2001 | 15,75 |
| | Rosemount Estate - South Eastern Australia | Shiraz, Mataro e Grenache | |
| | 13,5 % vol | Austrália | |
| 3º | Penfolds Koonunga Hill | 2001 | 15,5 |
| | Penfolds - South Eastern Australia | Shiraz e Cabernet Sauvignon | |
| | 13 % vol | Austrália | |
| 4º | Rosemount GSM | 2000 | 15,125 |
| | Rosemount - McLaren Vale, Barossa Valley | Grenache, Shiraz e Mourvèdre | |
| | 14,5 % vol | Austrália | |
Ainda não foi nesta prova que houve consenso geral, e continua a haver sempre gostos diametralmente opostos. Para um dos provadores, o vinho que ficou em primeiro lugar da média das classificações era o pior em prova. É salutar este tipo de opiniões, complica a análise mas comprova que aqui o que manda é o gosto pessoal de cada um. Os vinhos foram servidos a temperaturas de 17-18º, mas o seu estilo muito frutado não descuraria baixar um ou dois graus para que se beneficiasse desse perfil na sua totalidade.
Aquele que todos esperavam ser a estrela da noite, revelou-se cadente, e não foi além o último lugar. Estamos a falar do GSM da Rosemount. O seu nome provém das castas utilizadas (Grenache, Shiraz, Mourvèdre) e não é alusão nenhuma ao mundo dos telemóveis. Estagia 15 meses em carvalho americano e é o que maior teor alcoólico apresenta. No entanto, não passou despercebido a todos o estilo sobrematurado deste vinho, que denota alguma fruta já passa, e que contrastou muito com o estilo fruta fresca dos restantes (talvez justifique assim o teor alcoólico). De cor mais opaca e densa que os seus opositores, mas de tonalidade rubi, aromas de fruto muito maduro, ligeiro chocolate e queijo, pareceu melhor na boca, encorpado, doce e concentrado, e com final longo. Não é um género que tenha granjeado adeptos por entre os provadores, mas não deixa de ser um bom vinho. A crítica especializada colocou-o há pouco tempo como sendo o melhor vinho num painel de prova de estrangeiros. Como nota, podemos dizer que é o mais caro em prova, e que chega a custar entre três e seis vezes mais que qualquer um dos outros...
No último lugar do podium, ficou o Penfolds Koonunga Hill. Este vinho é prodigioso no seu equilíbrio e um caso sério de popularidade e qualidade. Foi alvo de estágio em carvalho novo. Cor carmim escura, aromas de fruto preto, ginga e cereja, ligeiro floral, com um delicado fundo de café e baunilha. Na boca enche os sentidos, é denso e frutado, com algum apimentado e especiado, terminando longo e doce.
Em segundo, uma surpresa, pois é o vinho mais acessível de todos. O Rosemount Shiraz Mataro Grenache, vinho da gama mais baixa da Rosemount. Com muito fruto vermelho e silvestre fresco e vivo, recolheu aplausos de todos. Prova repleta de doçura e sabor de fruta, um estilo que aparenta não ter madeira, com acidez um pouco mais elevada que os restantes, num ataque directo e sem grandes complexidades, mas certeiro.
O primeiro lugar ficou ocupado pelo "desconhecido" da noite. O Wyndham Estate Bin 555, um 100% Shiraz, mostrou-se um belo vinho, apesar de penalizado no gosto de um dos provadores, sendo o mais completo ou complexo em prova. Estagiou 15 meses em carvalho. Cor rubi, no nariz liberta um pouco de álcool ao princípio mas depois abre para nos dar em equilíbrio a fruta vermelha compotada, a baunilha e a ligeira tosta. Na boca é envolvente, mais composto e mastigável, com boa fruta madura e alguma doçura que é bem acompanhada pela acidez, taninos redondos. Final também longo e agradável.
Esta classificação mostra que há muita homogeneidade, e neste caso quem ganha é o consumidor, que consegue ter muito bons vinhos e acessíveis. O estilo revela-se um pouco diferente do que estamos habituados por cá. Aparenta ser uma linha de vinhos que privilegia as qualidades da fruta e que usa o resto apenas para aconchegá-las. A madeira presente nos estágios é usada com muita subtileza, não há excessos e, antes pelo contrário, às vezes passa quase despercebida, mas está lá. É verdade que com estágios de 15 meses até parece impossível isto acontecer, mas é a verdade. Talvez seja algo a aprender por estas terras lusas, porque há muitos vinhos por cá feitos que deviam ser identificados não pelas castas, mas pelo tipo de carvalho, tal é a predominância que a madeira tem.
Do nosso lado, ganhou adeptos e admiradores, apesar de uns mais fervorosos que outros.
Para compor a refeição, fizemos uma entrada de patê de pimenta verde, queijo de Azeitão, queijo de cabra, farinheira com ovo e torresmos soltos e de rissol.
O prato principal foi grelhada mista de carnes e as sobremesas foram apple struddel com mel, canela e gelado de nata e mousse de chocolate com nozes e amêndoas.
O acompanhamento das sobremesas foi um Carcavelos 1988, belíssimo vinho, repleto de notas aromáticas de mel, com uma prova doce e com notas de fruto seco.
Demos nesta prova a volta ao mundo, para irmos provar o que se faz de vinhos na remota Austrália e voltámos para dizer que são realmente um caso sério de qualidade, a preços muito sanos, e que deixam muito a vontade de repetir. Repetir é o que esperamos fazer também nestas provas, e aí, partilhamos tudo com quem gosta do tema.
Até lá!
COV
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