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Prova n.º 40 de Os 5 às 8 (Lisboa) 16 de Dezembro de 2003
Quinta do Monte d'Oiro200017,9
 96% Syrah e 4% ViognierJosé Bento dos Santos
 13 % volEstremadura 
Redoma200017,5
 Tinta Amarela, Tinta Roriz e Tinta BarrocaNiepoort (Vinhos) SA 
 13,5 % volDouro 
Quinta de Roriz Reserva200016,6
 Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta RorizQuinta de Roriz 
 13,3 % volDouro 
Quinta da Manuela200016,1
 Tinta Roriz, Tinta Barroca e outrasMaria Doroteia Serôdio de Sousa Borges 
 14,7 % volDouro 

Crónica
 
Não hesitámos em aumentar a "parada", procedendo a uma selecção aleatória onde se estivessem alguns dos mais conceituados tintos nacionais. Pelo menos, é essa a opinião que recolhem junto da esmagadora maioria da crítica e dos consumidores. O objectivo desta prova residia precisamente em corroborar ou, pelo contrário, desmentir tal ideia. Quis o destino que o lote de vinhos seleccionados fosse da colheita de 2000 e, no final, pudemos constatar que três tintos durienses haviam entrado em confronto directo com um vinho da Estremadura.

Embora em desvantagem numérica, a prova correu de feição ao vinho da Estremadura que conseguiu superar a concorrência directa e alcançar a posição cimeira: tratou-se do Quinta do Monte D'Oiro Syrah Reserva 2000. Ainda na ressaca do enorme sucesso que foi o seu Homenagem a António Carqueijeiro 1999, José Bento dos Santos lança mais um grande vinho. Fiel à melhor tradição do vale do Ródano, este produtor juntou 6% de Viognier às suas melhores uvas da casta Syrah. O resultado final é um vinho com uma bela cor mas sem excessos de concentração, carregando uma enorme frescura aromática que faz esquecer o álcool e nos remete de imediato para as virtudes da influência atlântica. Enorme originalidade aromática com a cereja a casar com apontamentos especiados, impressões mentoladas, a essência terrosa, as resinas e uma componente vegetal de grande complexidade. Cheio, sem ser pastoso, muito fresco, com o fruto, o vegetal e as essências balsâmicas a desdobrarem-se num final muito longo e especiado, com as ervas aromáticas a aumentar a complexidade do conjunto. Muito original, muito envolvente e pleno de carácter. A confirmação de um produtor, de uma marca e de um estilo... inconfundível! Pouco visto em Portugal.

A "prata" estava reservada para uma das grandes surpresas da prova: o Redoma 2000, um tinto duriense produzido pela Niepoort, e uma criação da dupla Dirk Niepoort e Jorge Serôdio Borges. Cor muito concentrada e particularmente intensa no menisco. Muito fechado nos aromas mostrando precisar de um par de horas de arejamento para dar um ar da sua graça -vários anos para sermos mais precisos-. Um início onde pouco mais se descortina para além do forte cariz mineral e da presença da excelente barrica de estágio. Pode parecer uma incongruência mas os aromas têm tanto de finura como de clausura e, só ao fim de uma hora surge a envolvência de um ramo de violetas e finos apontamentos de torrefacção. As notas de esteva e o fruto, nas versões amora, cereja preta e cassis, acabam por juntar-se à paleta de aromas. Muito poderoso na boca, mas nada pesado. Entra magistral, pleno de elegância e frescura, tudo num patamar muito elevado. Final longo, muito longo, combinando a componente frutada com o pendor mineral. Um bloco tanínico muito poderoso, mas ao mesmo tempo muito fino, perfeitamente integrado na restante estrutura. Uma fruta muito madura, mas escondida, com um perfeito balanceamento dos níveis de doçura, de forma a não ferir o equilíbrio e harmonia globais. Um tinto opulento, que o tempo se encarregará de fazer crescer em garrafa, porque só agora os aromas começam a querer dar sinais de vida. Um Redoma de grande nível. Muito impressionante...

Terceiro posto para o Quinta de Roriz Reserva 2000. Um tinto muito badalado junto da crítica mas sem o impacto correspondente junto dos consumidores. Elaborado por Charles Symington e Pedro Correia é um dos resultados da parceria entre João van Zeller e o grupo Symington. Outro exemplo de concentração, com as primeiras impressões a sugerirem uma criteriosa selecção de jogo de barricas. Um estilo muito centrado no poder apelativo do fruto, a que se juntam notas minerais, cacau, chocolate preto e as nuances abaunilhadas. Entra fresco, com uma textura acetinada a transmitir-lhe elegância e com taninos muito dóceis a enquadrar a restante estrutura. Álcool ligeiramente a descoberto para um belíssimo tinto duriense que acompanha as novas tendências de mercado e, estamos certos, fará as delícias de muitos consumidores. E, verdade seja dita, é difícil não gostar do estilo.

Quarto e último lugar para o Quinta da Manuela 2000. Para os menos familiarizados com o rótulo -não é fácil encontrá-lo disponível no mercado- trata-se de um vinho produzido por Maria Doroteia Serôdio Borges, também responsável pela elaboração dos tintos Fojo e Vinha do Fojo -afinal já conhecia-. O álcool "belisca" o nariz e outra coisa não seria de esperar -14,7% é obra-. Um conjunto, ainda assim conseguido: notas de caramelo, muita geleia de fruto, a compota, o morango e a amora e, com a longa permanência no copo, o aparecimento de boas notas florais. Encorpado, com uma textura untuosa, mas menos doce do que o nariz faria supor -e ainda bem-. Curiosamente, nota-se-lhe um toque austero, com a acidez a quebrar a força alcoólica e a transmitir-lhe uma frescura inesperada. Média persistência final, com um ligeiro amargor e com taninos doces mas bastante presentes, e cujo médio polimento aconselha algum tempo de guarda. O estilo madurão talvez o torne um pouco cansativo mas não deixa de ser um digno representante da região. Um tinto com qualidade mas polémico em termos da relação qualidade/preço.

A fechar a prova um Moscatel, datado de 1975, produzido pela Adega Cooperativa de Favaios. A acidez -ou a falta dela- gerou alguma controvérsia mas em qualquer dos casos o vinho denota excelentes cambiantes aromáticas: mel, canela, casca de tangerina, fruta cristalizada, mercúrio e excelentes apontamentos tostados a ofuscarem o álcool. Muito gordo, com uma evolução sedosa que lhe transmite uma grande envolvência na textura do palato. Final longo com os frutos secos e as notas caramelizadas a imporem-se. Prestes a completar três décadas, um Moscatel de muito bom nível e uma demonstração clara de que o estilo não está refém da Península de Setúbal. Muito bom.

Em suma, 4 tintos com perfis muito distintos, mas todos eles com um elevado padrão qualitativo. É difícil dizer quais deles reúnem os atributos para estar por mérito próprio no grupo dos melhores tintos nacionais. Contudo, as impressões deixadas levam-nos a não hesitar em incluir os dois vinhos mais pontuados nesse grupo. Se é que não estavam já lá.

O mesmo talvez já não suceda com o Quinta de Roriz: é provável que dos quatro vinhos provados seja aquele que reúne maior consenso junto dos consumidores, mas achámo-lo excessivamente centrado na doçura do fruto e, provavelmente, não terá a longevidade dos anteriores.

As reservas são ainda maiores no caso do Quinta da Manuela. O desequilíbrio alcoólico constitui um forte handicap para quem ambiciona a excelência e a história acaba por ser sempre a mesma: perde-se equilíbrio, elegância e harmonia. E, todos o sabemos, aquilo que poderia ser um grande vinho é só muito bom. É uma diferença pequena... mas faz diferença!

Copyright © 2004 Os 5 às 8