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A prova dos Carneiros... e amigos!

Crónica
 
A ocasião era única, e sobre qualquer prisma, imperdível, uma prova de carneiros… e amigos! Nada mais, nada menos, que uma prova alargada de vinhos com a chancela Mouton Rothschild, abarcando os "genuínos" Mouton Rothschild bordaleses, bem como as parcerias Almaviva e Opus One, respectivamente a associação com o produtor chileno, Viña Concha y Toro, e a associação com o produtor californiano, Robert Mondavi. A prova e posterior repasto tiveram lugar em Matosinhos, na garrafeira Vinho & Coisas, mais concretamente no Ristorante Degusto, com surpreendente e imaculada refeição elaborada por João Mota, que na ocasião se revelou como uma jovem promessa da cozinha portuguesa. Curiosamente João Mota é o "segundo" cozinheiro do Ristorante Degusto, restaurante que, tal como o nome indica, centra a sua oferta na cozinha italiana, tendo o chef Andreia Boccolli como comandante da cozinha.

Dividiu-se a epopeia em duas etapas, primeiro uma prova serena, semi-silenciosa e introspectiva dos vinhos Almaviva colheita 2002, 2001 e 2000, Opus One 2001 e Château Mounton Rothschild 2001 e 1999. Seguiu-se o repasto propriamente dito, onde foram provados sucessivamente, o Aile d'Argent 2001, Almaviva colheitas 1999 e 1997, Chãteau Mounton Rothschild colheitas 1996 e 1988, e finalmente um Sauternes (na verdade, um Barsac) Château Coutet 1997! Ufa!!! Como facilmente se percebe, uma prova ímpar, um convite irrecusável, um dia memorável, uma degustação inesquecível, uma desculpa fantástica para fazer um périplo pela cidade invicta!

Antes de passar aos vinhos, à sua análise e apreciação, uma palavra de apreço e louvor aos promotores da iniciativa, a garrafeira Vinho & Coisas, com a infatigável e muito simpática presença de António Nora, José Espírito Santo e Ivone Ribeiro (e Paulo Espírito Santo a controlar e a comandar magistralmente os pormenores da refeição). Um trabalho fantástico de promoção do vinho, um modelo de organização, onde nenhum pormenor é deixado ao acaso, um caso raro de empenho que é justo sublinhar.

Falemos então dos vinhos em degustação, começando talvez pelo meio, pelo vinho que menos nos impressionou e que provavelmente constituiu a surpresa menos positiva do evento, o Opus One 2001. Não que o vinho seja desinteressante, que o não é de forma alguma, mas esperávamos muito mais deste vinho que vem precedido de longa fama... e que é comercializado a preços que rondam os 200/250€ por garrafa! Mostrou elegância, fruta muito evidente e bem desenhada, apelativo, é relativamente sensual, mas mostra um déficit de personalidade que o afasta do campo restrito dos grandes vinhos. É um vinho relativamente fácil, mais evidente, acabando por se tornar um pouco aborrecido por ser demasiado previsível. Conquista numa abordagem mais ligeira, mas cansa rapidamente. Dito isto, obviamente que o continuamos a manter num patamar qualitativo bem elevado, mas infelizmente, mostrou não ter argumentos para conseguir "manter diálogo" com os restantes vinhos em prova.

Surpresa, surpresa, foram os chilenos Almaviva! Que privilégio raro poder fazer uma vertical das colheitas 2002, 2001, 2000, 1999 e 1997! Sobretudo do ano 1997, colheita escassa e esgotada há muito… excepto na reserva particular e estratégica do produtor, de onde saíram estas preciosas garrafas. E nada melhor que uma vertical para poder retirar conclusões sobre o estilo da casa, da fiabilidade e consistência do produtor, da evolução que podemos esperar destes vinhos chilenos… com evidente sotaque francês. Admiráveis os 1997 e 1999, sendo quase impossível escolher o mais comovente dos dois. Finalmente, e por curtíssima margem, optámos pelo 1997 pela justeza do equilíbrio, pela harmonia notável, sempre sem desdenhar o Almaviva 1999, um colosso da natureza que está numa fase particularmente impressionante do seu desenvolvimento. O 2000 foi a maior surpresa do lote de Almavivas, apresentando um perfil que em prova cega nunca nos apontaria para o Chile ou outro país do novo mundo. Todo ele sugere, indica, alude, para a região bordalesa, tudo nele grita Bordéus a uma só voz! E no entanto, a sua origem encontra-se a milhares de quilómetros e a um oceano e um hemisfério de distância... coisas do vinho! O Almaviva 2001 é outro vinhão, pleno de potência e elegância, cheio, expressivo, carregado de personalidade, com algumas notas terrosas, belíssima acidez, faz juz à teoria que os anos ímpares são generosos para este tinto chileno. Por fim o 2002, um vinho prestes a entrar no mercado internacional, uma colheita diferente, mais "animal", mais "machão", ainda imberbe, percebe-se o ar de família com as colheitas anteriores, mas não se descortina o mesmo potencial de guarda e de evolução.

E chegamos então à cereja no cimo do bolo, os Mouton Rothschild. O que se pode dizer deste vinho mítico, um dos exclusivos cinco Premier Gran Cru Classé de Bordéus? Apenas que, mesmo em prova comparativa com os distintos e admiráveis Almaviva, conseguiram mostrar que estão numa categoria aparte. A complexidade, o brilho, a frescura, a elegância, o equilíbrio, a harmonia, a textura e o final de boca, marcam a diferença e consagram estes vinhos no Olimpo enófilo. Maravilhoso o Mouton 2001, um aprumo de vinho onde tudo está no sítio certo, tudo está arrumado, onde a harmonia e o bom senso imperam. Interessante o 1999, mas sem atingir o brilho das restantes colheitas, voltamos a ver um Mouton muito interessante na colheita 1996. Está lindo, muito certinho, mas talvez demasiado pronto e maduro para o que se esperaria de um vinho deste nível. O Mouton 1988 voltou a despertar emoções, um bom exemplo da maturidade de uma colheita, que sem ser excepcional, permite criar vinhos deste calibre.

Por fim, palavras ainda para o Aile d'Argent 2001, o branco (relativamente recente) de Mouton Rothschild, um branco interessante e correcto, mas sem mais, sem capacidade para arrebatar corações ou despertar paixões. Finalmente, um Barsac de 1997, precisamente o Château Coutet, um Sauternes interessante, bem feito, meloso e untuoso, acidez correcta, mas mais uma vez, sem despertar paixões, e algo curto na boca.

Em conclusão, uma prova fantástica, extremamente pedagógica, um alargar de horizontes, e necessariamente uma redefinição dos parâmetros de análise.

Copyright © 2004 Os 5 às 8