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Um tour por Latour!

Crónica
 
No passado mês de Fevereiro, a convite da Vinho&Coisas, tivémos oportunidade de "tomar o pulso" a um dos produtores estrangeiros que integram o seu já vasto portfolio: a Maison Louis Latour, uma casa bicentenária, fundada em 1797 e, actualmente gerida pela sétima geração da família.

Sediada em Beaune -Côte-d'Or-, numa região marcada pela extrema fragmentação da propriedade, o Domaine Louis Latour constitui o maior proprietário da região com 50 hectares de vinhedos próprios (uma dimensão equivalente à dos Auspices de Beaune). Ainda assim, não abdica do seu estatuto de negociant, mantendo contratos e acordos com produtores locais que, por essa via, asseguram o fornecimento de vinhos, contribuindo para uma produção anual na ordem das 3000 caixas. Para além disso, desde 1898 que dispõe de tanoaria própria, aspecto tido como crucial para satisfazer os padrões qualitativos exigidos para os seus vinhos.

Contrariando anteriores apresentações, a Vinho&Coisas rumou a Lisboa e escolheu o Lapa Palace para acolher esta iniciativa. A José Espírito Santo, na condição de "anfitrião", coube a tarefa de fazer a apresentação geral do produtor e, simultaneamente, salvaguardar os mais ínfimos detalhes para garantir o sucesso do evento. E aí inclui-se a vinda a Portugal de Michel Veniat, director geral para a exportação da "Louis Latour". Muito afável, traçou o historial da empresa, falou na filosofia de trabalho da casa e, mostrou-se uma mais-valia para quem quis ficar com um conhecimento mais profundo dos vinhos em prova. Um profissionalismo inexcedível de ambas as partes. Cinco estrelas!

Duas verticais -um Chardonnay e um Pinot Noir-, direccionadas para a crítica da especialidade, serviram de "aperitivo" para um almoço de degustação. Não sendo oriundo de uma das três denominações que estão na origem dos mais afamados brancos da Borgonha -Montrachet, Batard-Montrachet e Corton-Charlemagne-, a verdade é que o Château de Blagny -um premier cru de Mersault-Blagny- se portou a bom nível e revelou de forma inequívoca muitas das qualidades da casta Chardonnay: vinhos encorpados, por vezes gordos mas retemperados por uma acidez refrescante e espelhando um leque de aromas centrados nas sugestões lácteas, nas notas citrinas e, nalguns casos, com as nuances amendoadas a abraçar o suave abaunilhado que emerge em pano de fundo. E a madeira, sempre presente na devida proporção, a reforçar a complexidade dos vinhos.

A colheita de '98 terá sido a menos conseguida: pareceu acusar algum cansaço, denotando uma ligeira falta de frescura, para além de mostrar menor persistência. Em contraponto, destaque para a complexidade aromática do 1999, muito rico nas sugestões amendoadas e tostadas e, dando mostras de estar num momento óptimo de consumo. Bastante interessante o 2000, num estilo mais contido de aromas mas, em contrapartida, muito eloquente na vivacidade ácida. Um Chardonnay equilibrado, elegante e com uma belíssima persistência de aromas e sabores. Prontíssimo a beber mas deixando antever que poderá ser guardado por mais alguns anos. A colheita de 2001 recupera parte do perfil do '99: cunho mineral num aroma mais cheio, mais gordo, mas sem perder frescura ou vivacidade na evolução. E com argumentos para poder continuar o repouso em garrafeira. Por último o 2002, talvez menos óbvio porque menos gordo e menos encorpado. Mas, decididamente, estruturado, harmonioso, com um bom equilíbrio entre ácidos e açucares e com uma bela persistência final. Belo vinho, e ainda na sua fase ascendente.

A segunda vertical teve por protagonista o Aloxe-Corton (igualmente das colheitas de 1998 a 2002), uma das denominações que está origem de alguns dos melhores Grand Cru da Borgonha. Os tintos da Borgonha são, salvo raríssimas excepções, difíceis para um palato pouco familiarizado com a casta Pinot Noir. São vinhos menos extraídos, mais débeis na cor e na concentração, sempre mais frágeis no corpo e, acabam por ser incompreendidos por muitos consumidores menos habituados a vinhos "setentrionais". Para agravar esta situação, os preços exorbitantes a que muitos deles são vendidos acabam por comprometer definitivamente a sua divulgação.

Acontece que, não raras vezes, são vinhos enganadores, que requerem apreciação atenta e demorada. E, nesse caso, é frequente depararmo-nos com uma complexidade aromática fora do comum, aliada a uma estrutura poderosa, mas ao mesmo tempo elegante, bem evidente na forma como os vinhos "prendem" no meio do palato e como se mostram persistentes no final.

Os tintos impressionaram positivamente, mas não se atingiu o nível dos brancos. Até porque tivemos azar com a garrafa de 2002, que se mostrou "avariada" e que, atendendo às circunstâncias, nos escusamos a comentar.

Em relação às restantes colheitas, o 1998 mostrou-se envolvente, bem focado no fruto de cereja, fresco e com taninos ainda plenos de vivacidade a toldar um final com média persistência. O 1999, mais austero no aroma, revelou bom potencial de evolução em garrafa: um tinto mais encorpado, arredondado, estruturado e sem descurar a elegância. A colheita de 2000 surge com uma evidente componente especiada a mesclar-se com o fruto: entra muito macio e "arrasta" consigo a marca da elegância, mas pedia sabores mais concentrados. Finalmente, o 2001, macio, sedoso, com a acidez a realçar a expressão do fruto vermelho e a avivar-lhe o pós-gosto.

Em suma, um conjunto de vinhos com consistência qualitativa, bons representantes da região e um espelho das potencialidades das castas Chardonnay e Pinot Noir. Globalmente, constituem propostas muito aliciantes para quem só agora se aventura pela Borgonha. E a preços francamente convidativos, por comparação com as "fortunas" que habitualmente é necessário despender para aceder a este tipo de vinhos.

Seguir-se-ia o almoço de degustação, já num ambiente de descontracção e, alargado a outros agentes do sector. Uma oportunidade para ficar a conhecer outros vinhos deste produtor e para identificar algumas alternativas gastronómicas que se coadunam com o perfil dos vinhos. As propostas incluíram: carpaccio de robalo com pequenos legumes acompanhado pelo Mersault 2003 -um vin de village; espetada de vieira em pau de funcho selvagem envolvida em pancetta secundada pelo premier cru Puligny Montrachet Sous-Les-Puis 2001; risotto de frutos do mar a emparelhar com um Corton-Charlemagne 2001, um Grand Cru e, finalmente, leitão à moda da Bairrada a casar com um Grand Cru tinto, o Corton Domaine Latour 1999.

Deixaram muito boa impressão as criações gastronómicas do Lapa Palace: em todo o caso, não fizeram esquecer a atmosfera mais intimista e, sobretudo, o ambiente de "culto" que se tornou imagem de marca do restaurante Degusto.

Uma última palavra para o dinamismo, rigor e competência da Vinho&Coisas: para além do carácter social que este tipo de eventos arrasta, as condições físicas, técnicas e humanas em que os mesmos decorrem possibilitam uma avaliação criteriosa dos vinhos. Ora, em Portugal, são poucos os que o fazem. E, no entanto, esse é um aspecto crucial para o exercício de uma crítica responsável. Parabéns à Vinho&Coisas! Também por isso...

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