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Vertical Churchill's

Crónica
 
Convites há que não podem ser recusados... e este enquadrava-se perfeitamente no perfil! Se mais não fosse, a apresentação e prova do Churchill's Vintage 2003 seria motivo mais que suficiente para nos "arrastar" até ao Terreiro do Paço. Só que a proposta trazia ainda um rebuçado pendurado, um repto aliciante, uma tentação irresistível, um desafio sedutor... por outras palavras, um convite para participar numa prova vertical dos vintage declarados da casa Churchill's! Escusado será dizer que as expectativas eram elevadas, pois não é segredo o respeito e admiração que nutrimos por esta casa. Poder acompanhar uma casa desde a nascença, do berço à actualidade, é sempre um acontecimento especial, sobretudo quando esta é a primeira oportunidade real de avaliar a performance do produtor benjamim do mercado.

Pensamos que a história é conhecida, já foi vista e revista, escalpelizada por diversas vezes, mas ainda assim acreditamos nunca ser demais recordar a génese histórica desta casa tão recente... mas com raízes familiares tão antigas e profundas na história do Vinho do Porto. O fundador da Churchill's ostenta como nome da baptismo John L. Graham (embora seja mais conhecido pelo diminutivo Johnny Graham), um apelido mais que suficiente para perceber as ramificações históricas da família. A casa Graham's foi vendida à família Symington em 1970 (curiosamente, já em 1882, Andrew James Symington, o primogénito na linhagem da "família do Vinho do Porto", foi associado da empresa Graham's, então ainda na possa da família Graham's), tendo Johnny Graham chegado a Portugal em 1973... já sem empresa para gerir! Jonhy Graham realizou parte significativa do seu percurso profissional na casa Cockburns, casa onde trabalhou até sentir confiança suficiente para se lançar na aventura de criar uma empresa própria. Foi assim que em 1981 nasceu uma casa nova no universo do Vinho do Porto, um facto que de tão raro merece relevo especial. O nome comercial da casa, Churchill's, vem do apelido de solteira de sua mulher, surgindo assim a casa Churchill Graham Lda, devido à impossibilidade evidente de Johnny Graham utilizar o seu apelido nesta ousada aventura empresarial.

Será evidentemente tema para discussão noutro local, não se enquadrando no espírito desta breve crónica, mas não vos parece curioso que o mundo do Vinho do Porto seja tão hermético que a criação de novas casas no séc. XX seja um fenómeno, que de tão raro, possa ser contado pelos dedos de uma só mão?

Mas enfim, deixemo-nos de divagações e ataquemos o âmago da questão, a vertical... e a apresentação oficial dos dois Vintage de 2003, o Vintage Churchill's e o Quinta da Gricha. Se o primeiro corresponde à declaração clássica (neste caso um lote de quatro quintas), o segundo é um "Single Quinta", assumindo as vantagens e desvantagens inerentes a essa condição. Sim, porque se a Churchill's começou, como sempre foi tradição no Douro, por comprar uvas a terceiros (e por vezes vinhos feitos), por meados dos anos 90 rendeu-se à evidência dos tempos modernos e adquiriu quinta própria, a por esta altura já famosa, Quinta da Gricha. Trabalhar, e sobretudo, poder controlar uvas desde a nascença, é uma vantagem considerável que não pode hoje ser desprezada por nenhum produtor, fazendo parte dos requisitos "obrigatórios" de qualquer casa com ambição.

Por outro lado, trabalhar com uvas de várias proveniências, uvas oriundas de diferentes quintas, permite obter matéria prima que beneficia de diversas exposições, castas, altitudes, sub-climas, uma vantagem considerável para o enólogo talentoso e criativo, e provavelmente um pesadelo para o principiante... E é por isso, que apesar de terem quintas próprias, a maioria das casas continua a comprar uvas alheias (e felizmente que assim é para bem da economia local), uma forma lógica e tradicional de enriquecer e aumentar a complexidade dos seus vinhos.

Bom, mas a verdade é que apesar de promessas anteriores estamos de novo a divagar e acabámos por ainda não entrar no fundamental, o motivo desta crónica, a real valia dos vinhos em prova, começando pelos dois mais aguardados, os dois vintages 2003. O Vintage clássico apresenta-se... precisamente dessa forma, clássico! Um pouco fechado, sisudo, contido, na melhor tradição dos "vintage à inglesa", dos vintage de antigamente. Mas atenção, dizemos isto como um elogio! A Churchill's não é casa para ceder a modas ou gratificações imediatas, continuando a construir os seus vintage a pensar no longo prazo, vinhos sérios e poderosos que não procuram a facilidade ou o facilitismo. Terá esta postura consequências e custos no mercado? Provavelmente, mas as produções são relativamente pequenas em comparação com os "major players" o que permite maior folga. Além disso é essa a filosofia da casa, e é essa que tem prevalecido! É bom saber que o mercado contempla estilos diversos e que há espaço para as diversas visões e formas de encarar o Vinho do Porto.

E nós que não paramos com estas divagações! Dizíamos então que temos um Vintage sério, acrescentando agora que felizmente temos um Vintage que, mesmo com a sua fruta sólida, soube adicionar e manter frescura e acidez natural, algo de notável e fundamental no ano "sui generis" de 2003. Se o vintage clássico se anuncia fechado, cauteloso e circunspecto, já o Quinta da Gricha, do mesmo ano, se apresenta exuberante de aromas, mais falador e cativante nesta primeira aproximação, mesmo se facilmente se percebe que o seu caminho será mais curto que o seu irmão de sangue. Mesmo sendo particularmente interessante, enxerga-se de imediato que é mais... imediato (passe a redundância), mais directo e óbvio, faltando-lhe a subtileza do vintage clássico. O mercado americano adorará o Gricha (e provavelmente já o terá consumido pelo Natal), o vintage clássico precisa de visão mais apurada, cuidada e atenta. Na nossa opinião, os patamares qualitativos são bem diferenciados, com o clássico uns bons furos acima... mas veremos se o mercado nos acompanha nesta opinião.

E eis então que chega então a altura de verificar o percurso histórico da Churchill's, um quarto de século de vida. Começando pela declaração de 1982, avançamos depois para 1985, 1991, 1994, 1997, 2000, para no fim revisitarmos a declaração 2003. Sigamos então a ordem cronológica de declarações, tentando construir uma breve resenha descritiva para cada vintage (breve resenha porque as notas de prova detalhadas seguirão mais tarde no seu formato tradicional). A primeira declaração, 1982 (oriundo maioritariamente da Quinta da Manuela, Fojo, com um pouco de Água Alta a compor o lote), dificilmente poderia ser considerada a estrela da manhã. Mostrou-se já um pouco evoluída de cor e aromas, não nos parecendo ter pernas para nos poder oferecer muito mais, estando agora no seu momento mais alto. Depois veio 1985 (novamente Quinta da Manuela e Fojo), um vintage bem composto, provavelmente mesmo muito bem composto para o ano em questão, mostrando-se melhor na boca que no nariz! Falemos depressa e bem, a declaração 1985 é uma das declarações mais sobrevalorizadas, e poucos, muito poucos, são os vintages interessantes desta colheita... e nem quero entrar pelo tema controverso do elevado número de garrafas "estranhas". Este Churchill's 1985 esteve muito bem, composto, sem deslumbrar, mas ainda assim acima da média do ano.

E é aqui que as coisas mudam, pois em 1991 (muito Quinta da Manuela e um pouco de Água Alta) a Churchill's fez um Vintage de arromba, um Porto de uma elegância rara que merece muito mais crédito do que lhe tem sido atribuído. Pode passar ao lado de quem não esteja com atenção? Pode sim senhor, pode e é fácil de acontecer. O que impressiona no vinho não é a potência, a força ou a exuberância, não senhor, o que nos tocou profundamente foi a suprema elegância, a finesse, o equilíbrio, a harmonia e a tensão ainda acumulada. E temos vinho para mais umas décadas, por isso não tenha pressa em bebê-lo. E de uma confirmação caminhamos de imediato para outra certeza, a colheita 1994. Um vintage muito diferente do anterior, mais poderoso, estranhamente evoluído na cor, mas surpreendentemente fresco no aroma e boca. Na senda dos melhores 1994! Logo de seguida um Vintage que não nos cativou, 1997, um vintage que se apresentou demasiado herbáceo, vegetal, algo perturbante, quanto a nós, o vintage menos conseguido dos vários em prova.

Mudamos de década e entramos no ano 2000, um outro ano de sucesso para a Churchill's. Neste momento está bastante fechado, algo perfeitamente natural nesta fase dos vintage. É um vinho que conhecemos bem e que nos deu grandes alegrias, sabendo bem que no futuro seremos recompensados por ter tido a paciência de saber esperar por ele. Para cimentar ideias e opiniões voltámos aos vintage 2003, e obtivemos as necessárias confirmações, temos um vintage agradável e sedutor... e um outro vinho muito sério que nos convenceu.

E pronto, esta crónica já vai longa, estamos na altura de colher conclusões, mas antes de concretizarmos o "fecho" da crónica, temos de acrescentar alguns apartes. Primeiro têm de ser endereçados os devidos parabéns a Maria Emília, dedicada e entusiasta distribuidora/importadora/produtora, a alma desta prova de organização imaculada. Depois uma palavra de apreço para Johnny Graham, um excelente conversador e conhecedor do Douro, uma personalidade forte mas de enorme facilidade de trato, um homem cheio de histórias engraçadas e curiosas sobre o Vinho do Porto e a sua história. Finalmente, seria impensável terminar sem mencionar a fantástica refeição com que Vítor Sobral nos brindou. Tivemos o privilégio de contar com Vítor Sobral no seu melhor, uma refeição inspirada (acompanhada em todos os pratos pelo Gricha 2002) e muito bem executada (fomos agraciados e beneficiados com a recente visita de trabalho que Vítor Sobral efectuou à Amazónia, tendo tido oportunidade de saborear nomes, aromas, sabores e sensações exóticas mas harmoniosas).

Em suma, dois vintage 2003 de muito respeito, dois vintage de estilos diferenciados, quase antagónicos, mas de qualidade superior, aliados a um historial de qualidade e consistência ao longo de três décadas, são o suficiente para colocar esta jovem casa nos lugares cimeiros do difícil mundo do Vinho do Porto!

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