No dia 23 de Julho de 2002 a equipa de redacção de Os 5 às 8 reuniu-se novamente, desta vez no restaurante O Orelhas (Queijas), que muito simpaticamente teve a gentileza de nos receber e de preparar uma óptima refeição para acompanhar esta prova. Infelizmente devido a outros compromissos o Tiago Teles não pôde estar presente e portanto compareceram apenas quatro dos membros fixos do painel, a saber, Paula Costa, Rui Falcão, Pedro Gomes e João Quintela. Contámos também com a simpática presença do Dr. Barão da Cunha (loja Coisas do Arco do Vinho) e sua esposa Beti, que nos brindaram com a sua excelente companhia. Tema desta prova, o produtor Quinta dos Roques, mais concretamente a sua caixa colecção de 1996. Esta caixa contém seis garrafas, uma de Touriga Nacional, outra de Tinta Roriz, outra de Tinto Cão, outra de Alfrocheiro Preto, outra de Reserva (lote das 4 castas) e ainda outra de Quinta das Maias Jaen. Decidimos deixar de lado a Quinta das Maias e provar os 5 vinhos da Quinta dos Roques de 1996. Ora 1996 foi um ano mágico no Dão, conseguindo aquilo que é a máxima ambição e utopia de qualquer produtor, produzir muito e de excelente qualidade. No caso particular da Quinta dos Roques foi esta colecção de 1996 que lançou este produtor (e o seu enólogo de então, o Prof. Vergílio Loureiro) definitivamente no caminho do estrelato sendo várias as referências elogiosas que estes vinhos mereceram e ainda hoje merecem da crítica especializada tanto portuguesa como estrangeira. Pois bem, o que nos propusemos foi precisamente verificar se estes vinhos se mantêm no degrau mais alto do podium dos vinhos portugueses. O procedimento utilizado foi o habitual, prova cega em que os participantes sabiam quais os vinhos em prova mas não a ordem pelo qual eram servidos.
Mais uma vez o Rui Falcão decidiu levar outro vinho para incluir na prova, desta vez o Monte das Cêpas Colheita Seleccionada 2000, um vinho regional alentejano proveniente de uma zona sem grandes tradições na produção de vinho, Mora. Este vinho tem a particularidade de ter sido feito pelo enólogo Virgílio Loureiro, o mesmo que elaborou os cinco vinhos em prova da Quinta dos Roques. Este vinho foi provado totalmente ás cegas, não sabendo os provadores que vinho estavam a provar, incluindo ano, região, castas, país, etc.
Primeiro facto curioso a apontar aos cinco vinhos Quinta dos Roques, o tempo que levaram a abrir no copo (foram decantados minutos antes de serem servidos). Belos vinhos no seu conjunto, plenos de juventude e com pernas e energia para ainda nos darem muitas alegrias no futuro. O único senão foi o Reserva que apresentou um defeito no nariz (problema desta garrafa em particular ou não ?). Alguns membros ainda admitiram no inicio que fosse rolha mas após análise mais detalhada concluiu-se que de facto havia um problema com o vinho, não com a rolha. Curiosamente na boca o vinho estava muito mais saudável que no nariz. Obviamente que este vinho foi bastante prejudicado na pontuação final. Um pequeno aparte, as pontuações indicadas são referentes apenas ás pontuações dadas pelos membros fixos do painel, não incluindo assim as votações dos dois convidados para esta prova.
O Touriga Nacional foi o vencedor incontestado e unânime desta prova, não havendo inclusive nenhum provador que não o tenha colocado em primeiro lugar! Cor vermelho carmim (mesmo no bordo), não apresentou vestígios de envelhecimento. O vinho apresentou-se muito bem no nariz ainda um pouco fechado, com alguma especiaria, fruta preta e notas de madeira. O seu único rival neste capítulo foi o Tinta Roriz, também com um excelente nariz. Na boca é poderoso, macio, redondo com uma excelente carga de taninos domesticados, um adolescente com um fim de boca loooooooongo. Que diferença para o Touriga Nacional de 1999 que tínhamos bebido em prova anterior.
O Tinta Roriz foi uma maravilhosa e grata surpresa. Os membros deste painel não provavam este vinho há cerca de quatro anos e tinham uma memória bastante diferente do vinho. Esta garrafa estava nas melhores condições e a evolução do vinho foi muito positiva, eu diria mesmo surpreendente! Cor vermelho carmim, jovem e límpido. Nariz floral, com muita fruta vermelha (morangos), um nariz muito atractivo. E que saudável que este aroma está! Na boca mostrou-se muito bem, embora não tenha conseguido manter o padrão de qualidade prometido pelo aroma. Mesmo assim um vinho muito concentrado, cheio de impacto e com um longo e elegante final. Um dos vinhos mais fáceis de identificar neste lote.
O Alfrocheiro Preto foi a surpresa positiva da noite, sinceramente ninguém esperava que o vinho se portasse tão bem como acabou por acontecer. Cor meio púrpura, cheia de vigor. Nariz com alguma madeira ainda presente, ameixas, fruta madura. Vinho muito agradável na boca, faz parte do lote de vinhos que se bebem por puro prazer. Muito macio, á primeira vista quase parece não ter taninos, mas após prova mais cuidada percebe-se que eles lá estão mas muito bem ligados e envolvidos. De qualquer modo fica a sensação que este será o primeiro destes cinco vinhos a perder qualidades. Mas por enquanto é um vinho muito guloso de se beber.
O Monte das Cêpas Colheita Seleccionada 2000 foi colocado nesta prova um pouco a "martelo", mais por curiosidade do Rui Falcão em saber qual a opinião dos membros do painel em relação a este vinho. Como desculpa para poder entrar nesta prova foi apresentado o facto de ter sido feito pelo mesmo enólogo ( e que se saiba é o primeiro vinho alentejano que o Prof. Virgílio Loureiro fez). A opinião foi consensual, um vinho interessante, bem feito com um aroma agradável, vigoroso e com fruta bem madura. Na boca facilmente se percebe que há correcção de acidez e que o vinho é ainda muito jovem. Precisa de algum tempo para se encontrar mas é um vinho honesto que pode prometer um bom futuro.
Tal como o Alfrocheiro tinha sido a boa surpresa da noite, o Tinto Cão foi a má surpresa da noite. Todos os membros do painel tinham provado este vinho na altura em que este foi lançado comercialmente e ficaram na altura bastante impressionados com este vinho. Era pois com grande expectativa que aguardavam a prova deste vinho. Nenhum dos membros do painel conseguiu reconhecer o vinho, os aromas florais, quase femininos bem como as notas vegetais desapareceram. Não é que o vinho seja mau, muito longe disso, só não conseguiu foi corresponder ás expectativas criadas.
Finalmente o Reserva, como já foi acima referido saiu bastante prejudicado por esta garrafa em particular. O vinho tinha um defeito aromático sério e portanto esta classificação tem de ser encarada com essa ressalva. A boca no entanto estava muito mais interessante e por isso mesmo acabou por merecer uma pontuação honrosa.
Copyright © 2002 Os 5 às 8 |