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| Entrevista com Álvaro Castro (Quinta de Saes, Quinta da Pellada, Pape e Dado) |
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| Introdução |
Álvaro Castro é um nome que dispensa apresentações. Os vinhos de Saes e da Pellada, sobretudo desta última, atingiram tal notoriedade e projecção que hoje são sobejamente conhecidos e reconhecidos pelo grande público. Mais recentemente, o projecto Dado ampliou o prestígio deste produtor/engarrafador, que não deixando os seus créditos por mão alheia ainda se lançou num novo projecto a "solo", o Pape. Álvaro Castro é um homem inconformado, um trabalhador incansável e imparável, um criador e um inovador, que longe de repousar sobre a imagem criada, procura constantemente a inovação, o desafio e a qualidade. Tal como ele próprio afirma, vive do vinho e para o vinho, e a paixão que transmite é quase contagiante, eloquente e indisfarçável. Considerado por alguns como o príncipe da Touriga Nacional, Álvaro de Castro recusa esse epíteto e curiosamente menciona e salienta hoje outra casta para as várias regiões de Portugal. Irreverente como poucos, tem ideias próprias, não tendo qualquer receio ou pejo em expressá-las, sendo hoje um dos principais porta estandartes do nome Dão.
Comecemos pelo Dão, pela sua região de eleição. Quais são as características que diferenciam o Dão do resto do país? O que é que o Dão tem para oferecer de único ao consumidor?
AC (Álvaro Castro) Bom, primeiro que tudo se calhar o Dão oferece-me um monte de dores de cabeça (risos).
Penso que as outras regiões não darão tantos problemas, pelo menos pelo ar de satisfação que eu vejo em alguns produtores (mais risos).
Agora no bom sentido, o Dão oferece-nos enormes desafios, mas tem pelo menos o mérito de nos manter acordados. Todos temos consciência que não é uma região fácil, mas eu estou convencido que é dentro da diversidade que se obtêm os grandes vinhos. Tenho a certeza que não é numa região que em 20 anos nunca teve uma colheita má (como já ouvi dizer a alguns produtores) que vão aparecer os grandes vinhos. Podem aparecer vinhos médios de boa qualidade, tenho a certeza que do ponto de vista financeiro é óptimo, mas não aparece aquilo porque eu ando no vinho...
E o que é que falta ao Dão para se tornar apelativo ao consumidor da mesma forma que o Douro ou o Alentejo conseguem? Como é que o Dão se pode impor no mercado nacional?
AC Eu acho que isso não vai acontecer nunca. Aquilo que me atrai a mim é chegar consistentemente aos nichos de mercado que me interessam... embora aqui não tenha certezas absolutas. Quem tem de conseguir conciliar quantidade com boa qualidade média tem de ser o movimento cooperativo do Dão e o movimento cooperativo tem de trabalhar no sentido em que me está a fazer a pergunta. Os produtores/engarrafadores têm a sua responsabilidade e eu trabalho nesse sentido. A verdade é que não conseguimos sobreviver, do ponto de vista económico, se não nos preocuparmos com a qualidade média. Eu não sou rico, gosto de fazer o melhor, o melhor que me é possível, mas vivo disto, desta actividade económica. Não acho muito interessante que cada vez mais pessoas cheguem ao vinho sem terem um objectivo económico, sem olharem a custos para atingir a alta qualidade... que muitas vezes não é rentável! Penso que essa não é a maneira nobre de andar nisto, sem nenhum tipo de preocupação económica. A forma nobre é encarar o vinho como um negócio, vivermos da actividade e conseguir fazer um vinho melhor que os outros.
Dado e Pape, são dois projectos novos e diferentes, o Dado em parceria com o Dirk Niepoort e o Pape com vinhas alugadas. São projectos para continuar?
AC O Pape é um vinho meu, embora proveniente em parte de uma propriedade que eu arrendei e que é minha vizinha. Arrendar nem sequer é bem o termo certo, no fundo há um acordo e enquanto esse acordo se mantiver eu vou fazer o Pape. E vou fazer o Pape desde que consiga manter o estilo segundo as minhas produções.
Existem outros projectos em que esteja envolvido?
AC Existe uma pequena brincadeira de um colheita tardia com um amigo meu, mas eu não o considero vinho meu. O vinho é dele, as uvas são dele, eu apenas o estou a fazer...
É curioso verificar que no último ano assistimos ao súbito aparecimento de vários vinhos portugueses de colheita tardia. Há alguma razão para este fenómeno?
AC Eu acho que o Dão não tem grandes condições para fazer um vinho de colheita tardia, este colheita tardia é da fronteira, da região de Almeida. Penso que essa região sim, tem boas condições naturais para poder fazer um colheita tardia... Mas atenção, este meu colheita tardia não foi procurado porque as uvas não deram para outra coisa... (risos)
Mas voltemos um pouco atrás, ao Dado. É um projecto com continuidade?
AC O Dado é sem dúvida alguma para continuar! Essa é definitivamente uma parceria a manter, é uma verdadeira parceria e digo-lhe mais, é uma parceria com lógica. A lógica é procurar o vinho ideal, é uma lógica que eu persigo na minha região e que o Dirk também persegue na região dele. Aliás o Dado 2001 já está feito, já está engarrafado, Deus queira que venha a evoluir bem, pelo menos tão bem como o Dado 2000. Em relação ao 2000 existem algumas diferenças, mas isso eu gostava de deixar para mais tarde...
A propósito do Dado e do autêntico calvário que foi a sua comercialização, qual é a sua postura face ao projecto de vinho "Portugal" ou "Regional Portugal"?
AC Eu não conheço bem esse projecto... penso que é um projecto de umas empresas grandes que pretendem que a nossa imagem chegue lá fora com maior consistência. Eu não conheço bem o projecto e por isso... Em principio não tenha nada contra.
O Dado, como é uma pequena produção, é uma coisa muito específica, vai continuar a coberto do IVV, com as dificuldades burocráticas que esse organismo nos levanta. Esperemos apenas que venham a ser melhoradas e facilitadas (risos).
Os tintos de Saes e da Pellada são conhecidos e respeitados pela maioria dos consumidores. Infelizmente não se passa o mesmo com os brancos. Quando é que iremos assistir ao nascimento de um branco de referência?
AC Esse é o meu projecto mais doido deste ano (risos).
Tem razão na sua afirmação. Eu gosto muito de brancos, sou um grande consumidor e estou disposto e com vontade de inverter a situação. Não tenho a certeza que as nossas castas brancas sejam tão boas como as melhores castas internacionais e não me parece que as castas portuguesas não se adequam ao tipo de vinhos branco que desejo. Pelo menos as que tenho plantadas não me deram os resultados que pretendo. O meu tipo de vinho branco não é um vinho muito moderno e quero fazer um branco que seja mesmo branco! Não estou interessado em fazer um branco tinto! Não quero fazer um vinho intenso, encorpado, fermentado em madeira (ou pelo menos em que ela esteja muito presente), quero fazer um vinho leve, com volume, com fruta e pouco alcoólico. Isso é muito difícil de conseguir em Portugal numa região "normal" e eu estou a pensar fazer isso na encosta Norte da Serra da Estrela, mesmo em frente da minha quinta. Se calhar até já tenho terreno! Agora vamos é ver se consigo plantar a casta pretendida, provavelmente Riesling ou em alternativa Sauvignon Blanc, dependente da altitude.
O Álvaro Castro foi um dos produtores que mais experimentou com as castas tradicionais do Dão, tanto em vinho estremes como em vinhos bi-varietais. Que conclusões conseguiu retirar dessas suas experiências?
AC Genericamente podemos dizer que as castas recomendadas pelo Centro de Estudos são as melhores - Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro. O Jaen também pode ter interesse, mas num tipo diferente... ainda não a conhecemos o suficiente, mas eu creio que pode ter interesse. Depois eu gosto da Baga, que apesar de não ser recomendada, é uma casta que tem muito carácter. Penso que é uma casta que pode funcionar muito bem fora da Bairrada, espero que a experimentem no Alentejo e no Douro e acho que é uma casta muito boa para Portugal. Não existe em mais lado nenhum do mundo e é uma casta com um carácter extraordinário (a única casta que eu conheço que tem alguma coisa a ver com ela é o Nebbiolo e os italianos fizeram dela uma estrela). Acho um erro não se apostar mais na Baga. Evidentemente que é uma casta difícil na Bairrada, mas no resto do país penso que se dará muito bem.
Depois de todos estes anos a apostar nas castas regionais do Dão, lançou-se agora à descoberta das castas internacionais Syrah, Merlot e Cabernet Sauvignon. O que é que estas castas podem acrescenta ao Dão e aos seus vinhos?
AC A vinha com as três castas está em Saes e tem uma belíssima exposição. Fundamentalmente eu quero saber como é que se comportam as nossas duas melhores castas (pelo menos na teoria) plantadas exactamente ao lado das três castas que têm maior prestígio internacional. Foi por isso que eu fiz essa vinha. Fundamentalmente pretendo poder fazer comparações entre as diversas castas.
O Álvaro Castro é tido por muitos como o expoente da Touriga Nacional. Como é que se sente nesse papel?
AC Por um lado sinto-me bem, mas por outro lado sinto-me mal porque afinal eu não conheço a casta Touriga Nacional tão bem como isso. Actualmente já a conheço melhor, mas a Touriga Nacional é uma casta que tem muitos problemas, primeiro em termos de vinificação e agora, se calhar, em termos de estágio. Mas de qualquer forma acho que é uma casta que tem grandes qualidades, quer como vinho jovem quer como vinho velho e nós temos é que aprender a trabalhá-la. Nesse aspecto, eu fico muito satisfeito. O que eu gostaria era de conseguir fazer com consistência o vinho de 1996, que um foi vinho de sorte, foi uma dádiva de Deus, eu só tive o mérito de não a ter estragado (mas podia-a ter estragado sem querer...)!
Depois da Touriga voltamos à Baga. A Baga é quase uma casta "maldita" no Dão e durante bastante tempo incentivou-se o seu arranque e a consequente erradicação da região. No entanto a sua Baga de 2000 veio agitar as águas e obrigou a algumas reflexões profundas. Mas a verdade é que não se conhecem reedições dessa Baga de 2000. Afinal em que ficamos?
AC Realmente nos últimos anos não consegui voltar a atingir a mesma qualidade do ano de 2000, provavelmente porque a vinha está a atravessar a fase pior. Como sabem a Baga de 2000 era a primeira folha e portanto é natural que isso aconteça. Eu continuo a acreditar nela e em 2003 (embora não vá fazer Baga estreme) o vinho tinha muito boa qualidade. Vamos ver como é que evolui a vinha, neste caso penso que é só esperar por ela. Não tenho dúvidas em relação à qualidade intrínseca da Baga e a Baga é se calhar a segunda melhor casta portuguesa, depois da Touriga.
Os anos de 1999 e 2000 marcaram uma mudança no perfil dos vinhos da Pellada, incluindo o tempo de estágio na madeira. Quais as razões para essa alteração?
AC Penso que numa fase que não anda longe dessas datas eu senti a necessidade de mostrar que o Dão também conseguia colocar vinhos cedo no mercado, acabando com aquele estigma que os vinhos do Dão novos eram imbebíveis e que velhos eram apenas toleráveis. Depois, existe uma outra parte que não tem muito a ver comigo, que pode ter sido fruto dos anos, que não foram anos tão bons. A parte que teve a ver comigo foram as vinificações, eu próprio pretendi vinificações menos intensas porque pensei que os anos se proporcionavam a isso. Por exemplo, em relação ao 1999 não estou arrependido das minhas decisões mas se calhar não correspondi às expectativas do consumidor no sentido que achava que aquilo era um vinho para guardar muito tempo... e não é! Estou-me a referir em concreto ao Touriga Nacional de 1999 que no Natal de 2000 e durante grande parte do ano de 2001 terá estado na melhor fase de consumo. Era um vinho feminino que hoje pouco promete e que agora sei que nunca seria um vinho para guardar muito tempo...
A sua experiência com diferentes tipos de madeira é bastante interessante - Limousin, Nevers, Allier e carvalho americano... Já chegou a alguma conclusão?
AC Nós, produtores de vinhos, temos dois problemas que nos são exteriores (para além dos problemas com o tempo, as uvas e a nossa incompetência...), que são as rolhas e as barricas. As barricas, que hoje são essenciais à evolução de alguns vinhos, são um dos grandes problema que nós temos. Ao fornecedor de barricas, tal como ao fornecedor de rolhas, não é uma aposta séria pagar caro. Temos de ter uma confiança cega no nosso fornecedor de barricas e ultimamente tenho privilegiado esse tipo de fornecedor. Relativamente às rolhas, é aceite por todos que as rolhas são um problema, até porque a maior parte dos fornecedores de rolhas são nacionais e a sua cultura não tem evoluído muito. Parece, parece... que evoluiu desde 1997... Sabemos que as deficiências começaram a ser corrigidas, imagine-se, porque foram os supermercados ingleses a levantar o problema. Parece-me que estão a tentar dar tiros no pé, a tentar estragar um negócio que é nacional e que apenas não acabou por não existirem grandes alternativas.
Voltando às barricas, felizmente os meus fornecedores de barricas não são portugueses, são casas já com várias gerações e que não querem ter clientes de um só dia... Se calhar estou a ser injusto para algumas tanoarias portuguesas, mas sinceramente não vejo o mesmo rigor nas tanoarias portuguesas que em algumas tanoarias estrangeiras.
O que podemos esperar dos seus vinhos de 2003
AC É um ano sem grandes problemas visíveis (chuva, trovoadas e coisas parecidas), agora vamos lá a ver se não existem outros. Os vinhos são muito apetecíveis, são muito bonitos, vamos ver o que sai dali. Eu estou expectante, não estou eufórico com o 2003, mas acho que se podem fazer coisas giras. Tenho alguns vinhos muito bonitos, que me apetecem muito... espero é que não sejam como a Brigitte Bardot (risos).
Sei que não está nos seus projectos fazer vinhos fora da região do Dão, mas imagine que tinha carta branca para fazer um vinho noutra região de Portugal fora do Dão. Qual seria a zona de eleição?
AC Sinceramente nunca pensei nisso. Provavelmente numa região que não tivesse nada a ver com vinho. Alentejo e Douro garantidamente não. Provavelmente num sitio que eu achasse que tinha o clima adequado e que não tivesse tradição. E isso cobre o país inteiro, porque penso que Portugal inteiro tem condições para poder fazer vinho de qualidade. Talvez um Pinot em Pinhel? Eu gosto muito desse tipo de vinhos, são vinhos que não estão na moda. Admito é que em termos financeiros fosse uma aposta arriscada. Mas a moda dos vinhos tintos vai acabar, pelo menos de aquilo que hoje se entende por vinho tinto - o excesso de álcool, o excesso de extracção, o excesso de fruta, só excessos...
De todos os vinhos que fez até hoje, qual é aquele em que sente mais orgulho?
AC Eu gostei imenso do Touriga de 1996, mas não tenho orgulho nele porque não tenho esse defeito (risos)
É um vinho que teve mais a ver com a natureza que com a minha intervenção. Aliás, todos os riscos que eu tenho corrido são no sentido da intervenção minimalista, a minha ideia é sempre intervir o menos possível nos vinhos. E tenho-me dado mal em algumas ocasiões... (risos) No caso do Touriga de 1996 as coisas correram bem. Neste ano não havia muito a fazer... e ainda bem que não fiz!
Pensa ser possível voltar a fazer um vinho daquela qualidade, com o mesmo estilo, mas em quantidades aceitáveis?
AC Eu penso que sim, não tenho dúvidas que mais tarde ou mais cedo isso vai acontecer. Primeiro porque tenho muito mais área de vinha nas mesmas condições e portanto não há razão nenhuma para que isso não aconteça. Além disso hoje tenho mais conhecimentos, poderá é ser uma questão de rentabilidade
Como vê o fenómeno dos vinhos de "arrecadação", com tiragens aproximadas de 1000 garrafas?
AC Esses vinhos são o maior risco do consumidor, ele nunca sabe aquilo que está a beber! Será que teve acesso à "cuvée des journalistes" ou não? Eu também não digo que não tenha feito coisas dessas, mas eu pelo menos, apesar de todos os riscos, tenho optado por rotulagens doidas para identificar para o consumidor aquilo que ele está a comprar e a beber. Agora para os vinhos de garagem do tipo "casco da direita virado para trás"...
Como explica que os vinhos de Saes e Pellada tenham conseguido resistir à alta de preços que assolou o país de Norte a Sul?
AC A principal razão é que eu vivo disto e não estou aqui para ter sucesso num ano e depois logo se vê o que vai acontecer! Não estou a ser bonzinho, simplesmente acho que cada produto vale o que vale... se calhar sou muito exigente comigo mesmo. Eu penso que aí os consumidores têm alguma razão, se calhar aparecem no mercado vinhos que não são uma obra de arte e que têm preços de obra de arte. Agora um produtor que viva do vinho, que faça o marketing, que faça um belo vinho, um vinho que me dê prazer, mesmo que ele chegue caro ao mercado eu não discuto o preço. Mas convém também reparar em que condições é que se encontra o consumidor, é preciso criar alguma sensibilidade nessa área.
Como é que está a crítica de vinhos em Portugal?
AC (hesitações) Eu queria ser justo... não queria ser exagerado, mas eu costumo pensar... eu não digo, penso... Em Portugal se calhar existe uma meia dúzia de produtores que quer fazer os melhores vinhos do mundo, nos consumidores existem uma meia dúzia de consumidores de nível superior-alto e a crítica também não foge a este padrão. Penso que a crítica também tem muito que evoluir, para ser mesmo boa. Para ser completamente justo não sei se é pior lá fora se é pior aqui em Portugal. Mas, faz falta o conhecimento internacional e as comparações....
Finalmente, como é possível que um produtor com o prestígio de Álvaro de Castro ainda não tenha um site na Internet?
AC Eu sei que mais tarde ou mais cedo eu vou ter de fazer qualquer coisa. O meu dilema é que preciso de acompanhamento. Na minha vida tenho uma actuação do tipo "one man show" e a Internet sem acompanhamento e actualização constante não tem interesse. É preferível um site pobrezinho mas actualizado do que ter uma coisa muito bonita mas sem informação relevante. A Internet é uma coisa importante e eu vou ter de ser sensível a isso e fazer qualquer coisa |
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