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Entrevista com Bernhard Breuer e Bernd Philippi (Quinta da Carvalhosa)
 
Autor: Rui Falcão
Data: 13 de Agosto de 2003
 
Entrevista com Bernhard Breuer e Bernd Philippi (Quinta da Carvalhosa)
Bernhard Breuer e Bernd Philippi quase não precisam de apresentação. São dois produtores alemães, de renome mundial, o primeiro em Rheingau, o segundo em Pfalz. Qualquer dos dois é sobejamente conhecido e reconhecido para precisar de grandes textos introdutórios, ou de perfis biográficos detalhados. São dois grandes conhecedores de Portugal (Bernd Philippi vem assiduamente a Portugal há mais de vinte anos e arrisca mesmo alguns comentários rudimentares na nossa língua) e sobretudo são dois apaixonados pelo país e pela sua gente. Conheceram-se através de uma ligação portuguesa (Miguel Champalimaud, como consultores num projecto de viveiros de videiras) e desde esse momento tornaram-se amigos e sócios inseparáveis em vários projectos espalhados pelo mundo. Um desses projectos trouxe-os a Portugal, mais concretamente ao Douro onde compraram e exploram desde o ano de 2000, a Quinta da Carvalhosa, produtora de três vinhos tintos, Ardosino, Campo Ardosa e Campo Ardosa RRR. Foi para falar de todos estes projectos que Os5às8 se reuniram em Lisboa com Bernhard Breuer, Bernd Philippi e um copo de vinho português, numa entrevista que mais pareceu uma amena cavaqueira entre quem sente e vive o vinho de forma apaixonada.

A operação alemã

Bernhard Breuer, fiz uma pequena pesquisa sobre si e sobre as suas vinhas e reparei num pormenor curioso que me surpreendeu. Apercebi-me que plantou recentemente, numa vinha nova que adquiriu, a casta Spatburgunder (Pinot Noir). Porquê plantar Pinot Noir em Rheingau?
BB (Bernhard Breuer) A casta Pinot Noir é uma casta tradicional de Rheingau. Há mais de 400 anos que ele existe e é plantada em diferentes vinhas na região. Não é uma novidade. Foi introduzida pelos monges das abadias que trouxeram videiras da Borgonha para Rheingau. Infelizmente, nos últimos 30 anos parece que sofremos um esquecimento colectivo sobre como fazer um Pinot Noir. Porquê? Porque a escolha clonal foi sempre virada para enxertos muitos produtivos mas com fraco potencial de qualidade. Hoje há um revivalismo do Pinot Noir em Rheingau e penso que é muito interessante ver os resultados da casta, agora que usamos bons clones, e que plantámos o Spatburgunder nos melhores locais, e não nos locais onde a Riesling não produzia, como fazíamos até há pouco tempo.

Tem planos para produzir vinhos com Pinot Noir?
BB Sim, mas garantidamente não às custas do Riesling. Neste momento a Pinot Noir ocupa cerca de 12% da área total de vinha e estamos esperançados com os resultados que temos observado.

Porque é que o Bernhard Breuer produz quase em exclusivo vinhos secos? Será que desta forma não está de certa forma a desvirtuar o modelo alemão?
BB A "tradição", sempre foi produzir vinho da forma mais natural possível, o que significa, de uma forma simplista, que se vindima, fermenta e ao completar a fermentação o vinho resultante é... seco! O vinho doce, só pode ser feito de "forma natural", sem parar de forma artificial a fermentação, se as uvas tiverem uma enorme concentração de açúcar. Para isso é necessário que as uvas estejam "atacadas" de botrytis ou que estejam congeladas em Eiswein, o que convenhamos só acontece numa percentagem mínima da colheita, normalmente em menos de 3%. Até porque há que ter a consciência que a botrytis é algo a que qualquer produtor quer fugir, já que o risco que o produtor corre é demasiado grande.

Mas a opção pelos vinhos secos não passa também por simplificar, tornar mais fácil e mais intuitiva a harmonia com a mesa?
BB Sim, mas a ideia de produzir vinhos secos é a ideia mais "normal" e mais intuitiva que existe na enologia. Sabe que se analisar a maioria dos vinhos alemães das décadas de 30 e 40 chega à conclusão que eles eram secos? Na época, nem sequer era legal engarrafar qualquer vinho doce que não o fosse naturalmente. Mas tem razão, o vinho seco é de facto o melhor acompanhante da mesa e dos vários paladares. Mas a palavra chave é que não estamos a inventar nada, estamos apenas a cumprir, da forma mais autêntica, a tradição alemã.

Acredita que a casta Riesling voltará alguma vez a ser popular no panorama internacional?
BB Se se entender popularidade como sinónimo de grandes produções, então a resposta é não! A casta Riesling, precisa de um clima especial, de um "terroir" especifico para poder dar bons resultados. E esses locais são muito limitados geograficamente, resumem-se à Alemanha, Áustria, Alsácia e Austrália. Sabe, gosto muito de comparar a casta Riesling ao Pinot Noir! São as duas castas que mais reflectem a verdade do terroir, uma branca, outra tinta, mas ambas castas que variam com o terroir em que estão plantadas. O que por um lado se pode tornar num enorme problema comercial, já que produzem vinhos muito pouco uniformes e todos sabemos que o consumidor médio gosta de uniformidade e de constância.

Pensa que a rotulagem alemã ajuda a afastar os potenciais clientes?
BB No nosso caso usamos uma rotulagem muito simples e intuitiva, outros produtores utilizam rotulagens mais complicadas, mas muitas vezes com excelentes resultados. Não me parece que a rotulagem seja um factor primordial. Por exemplo, a rotulagem francesa está longe de ser um modelo de clareza (veja-se o caso da Borgonha) e no entanto isso não impede que os vinhos se vendam...

Acredita na agricultura biológica?
BB A palavra biológica é uma palavra que se presta a muitos abusos. Sob o rótulo e a palavra biológico existem uma série de produtos "industriais" que são aceites pelas normas internacionais. Temos de ter consciência que a vinha não é estável nem viável sem o combate a pragas que afectam a videira, como o oidium, a botrytis ou o míldio. Se as doenças não forem combatidas, então, pura e simplesmente não vai existir fruto! Isto é uma realidade e um facto, tão simples como isto! No entanto, acredito profundamente que se deve tentar produzir e manter o maior equilíbrio e harmonia possível entre a videira e o solo, de preferência sem o uso de agentes químicos. Penso que o equilíbrio entre o rendimento por videira e o potencial do solo é a chave para uma exploração equilibrada da natureza.

Alemanha, África do Sul e Portugal! Quais são os próximos projectos?
BP (Bernd Philippi) (risos) Sim, temos mais alguns projectos, juntos, desta vez em Maiorca. E temos outras ideias, mas infelizmente o dia só tem 24 horas de forma que alguns têm de ficar adiados... Maiorca nasceu por um acaso. Um agente imobiliário alemão bastante rico comprou uma propriedade de 90 hectares onde cultiva centeio, amêndoas e cria gado e achou que também seria interessante fazer lá vinho. Mas os seus conhecimentos de vinho resumem-se a saber da existência de vinho tinto e vinho branco (risos). Entrou em contacto comigo e eu disse-lhe, tudo bem, envie-me um bilhete de avião e eu apareço. Eu sou um homem de solos, do chão, e logo que lá cheguei gostei do que vi. Plantaram-se 4 hectares com Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Grenache, Alicante Bouschet, Callet e Mantonegro (as duas últimas são variedades locais). O potencial é incrível e estou convencido que podemos fazer vinhos muito interessantes naquela zona.

A operação portuguesa

E claro, agora tenho de lhe fazer a pergunta mais óbvia, porquê Portugal?
BP A primeira vez que vim a Portugal foi em 1979, e desde essa altura que volto todos os anos. Gosto dos solos, sou um homem de solos, de terroir, e adoro os vários solos do Douro e do Alentejo. Gosto do xisto do Douro e do mármore do Alentejo. Se comprasse uma quinta no Alentejo, seria quase de certeza em Borba, pelos seus maravilhosos solos de mármore. Mas mais importante que tudo o resto, adoro os portugueses. Sabe, conheci tantas pessoas em Portugal, fui convidado a casa de pessoas ricas e influentes, de pessoas pobres e modestas, mas todas elas sempre me deram tudo o que tinham sem pedirem nada de volta. Não conheço mais nenhum povo assim. Há anos que tenho o sonho de fazer vinho em Portugal.

E porquê o Douro?
BP Para lhe dizer a verdade começámos pelo Alentejo, mas por variadas razões havia sempre algo que falhava ou faltava. Por coincidência pensámos no Douro, e ao ver a 12ª quinta descobrimos imediatamente que era aquilo que queríamos. Gostámos, e 16 dias depois a quinta já era nossa! De tudo o que vimos só existiram 2 quintas que comprávamos sem hesitação, independentemente dos custos, a Quinta da Carvalhosa e outra propriedade no Alentejo, em Reguengos.

Então a escolha do Douro tratou-se de uma coincidência?
BP Sim, de certa forma foi. A determinada altura estivemos quase a comprar uma propriedade no Alentejo, com maravilhosas vinhas velhas. Já tínhamos acertado o financiamento com o banco, tínhamos contactado o registo, quando nos deslocámos de novo à propriedade. E qual não foi o nosso espanto, quando deparámos com um cenário em que as vinhas velhas tinham sido arrancadas! O proprietário aproveitou um subsidio da UE para arrancar toda a maravilhosa vinha velha que possuía! Claro que o negócio parou imediatamente! E foi nessa altura que começámos a procurar no Douro, a procurar pelos lagares. Rui Cunha ajudou-nos a procurar e finalmente mostrou-nos a Quinta da Carvalhosa. Foi amor à primeira vista!

Pensa que o Douro tem capacidade para se poder afirmar no panorama internacional?
BB Penso que o Douro tem um enorme potencial de "finesse" para dar ao mundo. Os seus vinhos são pouco mediterrâneos, são muito centro-europeus no seu estilo e potencial. Ouso mesmo afirmar que o Douro tem alguns dos melhores terroirs europeus, juntamente com a Borgonha, Rheingau e Mosel. Sabe que o interesse no Alentejo, pelo menos no meu caso, deve-se também a estar "farto" de escarpas e declives profundos e por uma vez na vida poder fazer vinho numa terra plana (risos). Reparei que a mentalidade no Alentejo é mais mediterrânea e simultaneamente mais aristocrática, enquanto que no Douro é muito Borgonha. Agricultores, produtores, gente que vive da terra e que trabalha a terra. Sinceramente, sentimo-nos muito bem no Douro.

Quando compraram a Quinta da Carvalhosa a vinha já lá estava e por isso utilizam apenas castas tradicionais da região. Têm planos para alterar esta situação?
BP Mas, se nós viemos encontrar castas tão boas em Portugal, porque é que nos passaria pela cabeça mudar a composição? Não nos passa pela cabeça trazer nenhuma casta de fora. Nada de nada!

Que casta ou castas internacionais se podem adaptar melhor no Douro? Não necessariamente na Quinta da Carvalhosa, mas no Douro em geral?
BP Nenhuma! Absolutamente nenhuma!
BB Parece-me que no caso do Douro, a questão das castas não é primordial. Mais que as castas, no Douro o que se sente é o local, o terroir onde as castas estão plantadas. Então, porque é que deveríamos importar uma casta que se sobreponha ao terroir? Não faz sentido! Se nos concentrarmos demasiado nas castas do Douro temos tendência para nos esquecermos do solo, e no Douro o mais importante é o solo, o terroir... que é um dos melhores solos do mundo!

Pensa vir a produzir Vinho do Porto no futuro?
BP Não, nunca! (risos)

Foram bem acolhidos pelos vizinhos?
BB Temos dois vizinhos, um é o Dirk Niepoort, e o outro é o Sr. Bouchard, proprietário da Quinta do Tedo. O que o Bernd disse sobre os portugueses também é válido para os produtores. Nunca sentimos que a nossa presença fosse mal vista e sempre fomos extremamente bem recebidos. Penso mesmo que a nossa presença, de certa forma, pode ser benéfica para a região. Por exemplo, neste momento estamos a tentar organizar a presença de alguns produtores durienses numa mostra de vinhos na Alemanha. Penso que esta colaboração pode funcionar muito bem para ambas as partes.

Conhece bem os vinhos portugueses?
BP Ao longo destes últimos 20 anos tenho tido oportunidade de provar os melhores vinhos portugueses. Tenho também tido oportunidade de poder ir avaliando a sua evolução. Tentamos sempre provar os melhores, e penso que o temos conseguido. De forma que sim, posso dizer que conheço bem os vinhos portugueses.

Pensa que Portugal poderá alguma vez produzir um vinho branco de grande qualidade?
BP (hesitações)Tenho bebido cada vez mais brancos portugueses, sobretudo Vinho Verde. Penso que o Alvarinho pode fazer vinhos fantásticos e existem alguns vinhos de gama média muito bem feitos. Por exemplo, o Muralhas é um vinho excelente para o preço. A região que me parece ter maior potencial é a região do Minho, sobretudo com os Alvarinho.

Sem o querer embaraçar, pensa que nos pode indicar alguns vinhos portugueses que o tenham impressionado?
BB Provei há pouco tempo o Vale Meão 2000 que me pareceu ser um belo vinho e sou um grande apreciador de Mouchão, de que tenha várias garrafas na minha garrafeira pessoal. Há que dar-lhe tempo, é rústico em jovem, mas com 20/30 anos transforma-se num vinho magnifico. Mas há mais, o Redoma e o Batuta são vinhos fantásticos, a Quinta do Mouro no Alentejo faz alguns vinhos muito bons, as colheitas antigas do Quinta do Côtto Grande Escolha, sobretudo os anos 80, e os vinhos da Tapada de Coelheiros.

Finalmente, o que acha da Internet como meio de divulgação do vinho?
BB Infelizmente nós não temos o tempo que gostaríamos para nos poder envolver directamente e periodicamente na Internet (embora tenham site na Internet). Mas penso que a informação e a divulgação do vinho na Internet é uma autêntica revolução! Ao divulgarmos o vinho através da Internet, inevitavelmente o interesse das pessoas cresce e todos temos a ganhar com isso. Não acredito que a Internet seja um bom meio para vender vinho, na verdade nem estou preocupado com isso, mas as possibilidades de informação que se abrem são arrasadoras e fantásticas. Penso que a Internet está para o mundo actual como a tipografia esteve para a transição entre a idade média e a idade moderna.