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Carlos Campolargo
 
Autor: Rui Falcão
Data: 11 de Abril de 2005
 
Visita a Campolargo
As vinhasChegados a Mogofores vindos da Anadia, entrámos destemidos pela terra de uma das mais ilustres figuras portuguesas, António Luís de Seabra, mais conhecido como Visconde de Seabra, autor do primeiro código civil português. Notável jurisconsulto, ministro de Estado, bacharel formado em Leis pela Universidade de Coimbra, reitor da mesma Universidade, juiz da Relação do Porto, deputado, par do reino, juiz aposentado do Supremo Tribunal de Justiça, Mogofores foi colocada no mapa por este ilustre português... mesmo se outras vozes reclamam o nome de "Toni", como o mais ilustre natural da terra!

Adiante, que o que nos trouxe a Mogofores foi o produtor Campolargo, o maior proprietário de vinha na Bairrada, um produtor com um percurso exemplar! O que vimos foi um projecto bem desenhado, uma aposta decidida na qualidade, na experiência mas também no experimentalismo, uma mistura saudável de tradição e inovação, uma postura de permanente insatisfação, uma busca incessante de fazer melhor… e maior.

Dar uma volta pelas vinhas é sempre a melhor forma de apreciar um projecto... e foi precisamente pela vinha que veio a primeira impressão positiva. Espaço bem tratado, vinha impecável, esmero e orgulho evidente no trabalho feito, e um património ampelográfico de fazer corar alguns viveiristas! Syrah, Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Petit Verdot, Baga, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Castelão Nacional, Sousão, Alicante Bouschet, Tinta Francisca, Viognier, Sauvignon Blanc, Bical, Arinto, Sercial, um mar de castas que permite dezenas de combinações e experimentações. E meus senhores, tudo isto plantado em 160 ha de vinha, na sua quase totalidade contínua e contígua.

À escala regional, tamanha dimensão é quase sinónimo de monopólio! Os 160 ha plantados confirmam os pergaminhos da zona, ou seja, a variabilidade geomorfológica é uma constante natural, uma vantagem tradicional bairradina, aqui amplificada pela dimensão. As exposições também variam, aliás, tal como a altitude, e por isso Campolargo tem o privilégio raro de poder escolher o melhor local para plantar cada casta do vasto rol que possui. Curiosamente, são poucas as vinhas velhas existentes neste imenso espaço impecavelmente tratado. Uma opção declarada do produtor que prefere temperar o vigor exuberante das videiras jovens, a ceder aos caprichos das vinhas velhas, uma opção assumida sem pejo e sem artifícios.

Pormenor do tectoVisível de qualquer ponto da vinha, lá está ela, a principal razão para esta visita (mas não a única), a nova adega de Carlos Campolargo. Uma adega modelo, um empreendimento que quando estiver finalizado poderá fazer parte das visitas obrigatórias dos enófilos portugueses. Sita no ponto mais alto do "latifúndio", tudo nela funciona por gravidade, sem necessidade de forçar ou "magoar" as massas que circulam na adega. Mesmo assim, e "just in case", para o que der e vier também lá estão umas bombas peristálticas, sempre com o cuidado de nunca ferir a susceptibilidade às preciosas massas vínicas.

A adega assume a sua dupla vocação, local de labuta, de feitura de vinho, e local de representação, de turismo e de destino eno-turístico. E que bem cumpre o segundo papel (sem desprimor para o primeiro, mais evidente e funcional). No topo de um torreão ergue-se uma sala de visitas (que poderá albergar jantares vinícolas e apresentações de vinhos num futuro próximo), um espaço de puro bom gosto com tecto de madeirame à vista... e uma vista desafogada sobre a vinha, numa sala que primará pela luz natural em abundância. Como cartão de visitas, não será fácil fazer melhor!

Depois ainda uma outra sala de proporções admiráveis, uma sala erigida mesmo sobre a vinha, quem sabe se um local para um futuro restaurante? A futura loja será aqui disposta, confiando o produtor na obtenção de receitas significativas na venda directa dos seus vinhos. Seguem-se laboratórios de análise, cantina para empregados, escritórios e salas administrativas (que luxo, servidas por um elevador!), até que entramos na adega propriamente dita. É de ficar boquiaberto! O espaço abunda, a dimensão é imponente, a limpeza absoluta... e a inovação marca presença assídua. Seria fastidioso descrever as várias etapas do processo, os detalhes que tornam esta adega única, mas a verdade é que é mesmo única, com diversos equipamentos desenhados especialmente para este espaço.

Quanto à nova cave de estágio, ainda por inaugurar, a dimensão é tal que nos assenta a dúvida se estaremos no local certo. Digamos que será maior que muitas estações de camionagem por este país fora! Uma dimensão que não se suspeitava num produtor que nos habituou a tiragens limitadas de alguns vinhos ícone das Beiras. Dissemos Beiras? Não, já não! Campolargo decidiu regressar às origens, ao nome Bairrada que tanto preza, tentando arrastar consigo outros produtores de prestígio da zona. A partir de 2003 todos os vinhos Campolargo ostentarão o selo Bairrada (sim, sim, incluindo o Diga?), para o melhor e o pior.Pormenor da adega

Carlos Campolargo idealizou os seus vinhos em torno da experimentação, do confronto de castas, nacionais e estrangeiras, da subtil junção de tradição e modernidade. A sua preocupação não é fazer vinhos fáceis ou modernos, vinhos centrados na doçura do fruto e, consequentemente, muito apelativos, do agrado geral e que proporcionem prazer efémero. E os resultados estão à vista, com vinhos de corte tradicional (embora de outras paragens) como o Calda Bordaleza, ou com vinhos irreverentes e provocadores como o Diga? ou o Vinha da Costa. E a preocupação estética com os vinhos não se limita ao líquido aprisionado na botelha, estendendo-se ao desenho de rótulos elegantes e personalizados, ao acompanhamento desde a vinha até ao consumidor.

Assim que se constrói um nome e uma reputação, com atenção e cuidado nos detalhes!